<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708</id><updated>2011-09-17T03:31:42.938-07:00</updated><title type='text'>Monte de Palavras</title><subtitle type='html'>Blog de Contos</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>8</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708.post-4392982330381987337</id><published>2010-01-11T05:36:00.000-08:00</published><updated>2010-05-10T17:27:12.259-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="  ;font-family:'Times New Roman';font-size:medium;"&gt;&lt;p align="center" style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;font-size:100%;"&gt;&lt;b&gt;A MENTE HUMANA&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Tertulião acordou com uma terrível enxaqueca. Não houve nada de restaurador no sono, muito pelo contrário, pesadelos corriqueiros demais para serem lembrados haviam drenado sua vitalidade e, de modo irreal, viu-se mergulhado na rotina em que toda a energia sempre ia embora. Vamos nos erguer, pensou Tertulião. Ficar sentado um tempo observando a claridade do dia resplandecer sobre a imundície da escrivaninha. Mas não conseguiu nem mover os braços, nem as pernas, nem girar os quadris na manobra usual para erguer o lado esquerdo do corpo, que era o mais ágil. Estava preso, colado à cama. Não sentia as coisas direito, não conseguia se concentrar em nada. Àquela altura, já havia se convencido de que deveria se preocupar com seu estado. Poderia gritar, mas sua solidão construída e mantida por anos era eficaz em garantir seu isolamento mesmo em casos de emergência médica. Ainda que houvesse alguém mais no apartamento, sua voz estava entalada. Diante do desagradável afunilamento das alternativas resolveu, sumariamente, empregar suas poucas energias disponíveis no desespero silencioso da alma.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Abriu e forçou os olhos, sentiu-os molhados o que já era um progresso. O mundo já não era mais escuridão; focos borrados de luz já  penetravam sua vista flácida. Então, aconteceu a prova irrefutável de que havia algo muito estranho, como se tudo não passasse de um sonho ruim.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Sentiu a orientação do corpo mudar. A cama inclinou-se com ranger metálico e o pescoço logo notou a mudança, permitindo que a cabeça tombasse para baixo, como acontecia nas súbitas quedas de pressão. Mas o que significava tudo aquilo? Definitivamente, não era a cama dele, pois jamais teve esta curiosa função. Nem era algo útil para uma cama fazer.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Então, percebeu a presença de outras pessoas. “Será que este é  o meu quarto?”. Pensou. E tentou pronunciar tais palavras, pois já sentia que tinha cabeça e boca. Mas foi frustrante, porque a língua parecia não estar lá. Ao abrir a boca, teve uma sensação tão desagradável quanto insólita. Primeiro uma convulsão, não muito violenta, mas bastante desagradável, depois o esôfago e a garganta se alargaram, com ruídos fundos, orgânicos e viscosos. Não havia dor, mas sua garganta parecia estar dando passagem a um limão. Então, na boca, uma gosma gelada deslizava pelas  paredes de modo rápido e gelatinoso, para enfim ser excretada em pequenas convulsões rumo ao chão. “Vai estragar o carpete!”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Seguiu-se uma sensação de alívio, um prazer estranho e inédito. Era como se estivesse mais leve, não apenas fisicamente, mas o vômito, sagrado e benfazejo, parecia tê-lo livrado de suas preocupações. O bem estar durou pouco, pois algo renovou sua já intensa desconfiança de que algo trágico para si estava em andamento: começaram a empurrar a cama para frente, como se houvesse rodinhas. Parecia um pesadelo em que o “eu” é identificado, porém não há o pleno controle das faculdades do corpo, sofrendo-se de um mutismo opressor. Mas algo indicava a realidade da desgraça; não conseguia ver-se de fora do corpo, como era comum durante o sono, no seu cinema particular.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;O máximo que conseguia notar eram clarões que se seguiam e, somados a uma brisa constante, sugeriam o movimento. Então, uma parada, denunciada pela inércia do corpo inútil projetado contra amarras. A inércia estava ali, era algo familiar pelo menos. Mas não as amarras, estas causaram ainda mais estranheza e medo, afinal, eram um empecilho a sua reação, sinal de que qualquer que fosse o plano, haviam lhe reservado o papel de vítima.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Então, um giro e vários sons distinguiram-se, indicando que equipamentos estavam sendo acionados. Um jato líquido contra o seu corpo o fez debater-se, movendo o pescoço em todas as direções. Não tinha certeza, mas desconfiou que sua cabeça dava voltas completas para fugir dos jatos. O cheiro era cítrico e o sabor, ácido.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Fora o medo, estava ficando furioso. E como haveria de ser diferente? Aquilo era muito inconveniente, algo de uma impertinência sem precedente. Quem estas pessoas pensavam que eram?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Percebeu que estava gritando.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Marcos Tertulião, acalme-se.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Era isto mesmo que acabara de ouvir? Não. O que o outro disse, na verdade não foi dito, foi urrado de um modo estranhamente calmo em um idioma desconhecido. Mas o cérebro de Marcos compreendeu. Captou o sentido dos sons monstruosos com exatidão, chegou a desconfiar que estava delirando, mas sua fantasia se foi quando também ele pôde comunicar-se, traduzindo pensamentos claros em gritos e zumbidos selvagens que não se recordava de ter aprendido.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Quem é você? O que está acontecendo?”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Já está melhorando. Em breve, estará totalmente recuperado”. A isto seguiram-se outros ruídos, que Marcos supôs serem vocais, embora não formassem palavras significativas. Eram antes interjeições de alegria, o que trouxe alívio considerável, pois reduziu a possibilidade de tratar-se de ambiente hostil. A menos que não estivessem felizes pela perspectiva de seu bem estar, mas sim  pela boa disposição de Marcos que possibilitava a realização de algum propósito que lhe provocasse desgosto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“O que está acontecendo? Quem está aí?”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Mais uma vez, Marcos, pedimos que se acalme. No momento, é impossível você entender o que está acontecendo. Mas não tema, tudo funcionou perfeitamente, e nada de ruim lhe acontecerá.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Outra pessoa se manifestou:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Este é o momento ideal para a informação. É melhor que ele saiba antes de recuperar a visão”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Silêncio. Silêncio não; ruídos baixos o bastante para deixar Marcos às cegas. Mas que conversa era aquela? O corpo, o corpo precisa ser verificado, algo deve estar faltando, deve ser isto, e o desespero voltou. “Ei! Ei vocês!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Subitamente:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Nós acabamos de criar todos os aspectos da sua mente humana e inserimos num corpo dos nossos. Todas as estruturas mentais, bem como o conteúdo foi nossa primeira tentativa bem sucedida de reproduzir uma mente humana.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Ouviram-se sons alarmantes de aparelhos eletrônicos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“O espécime está instável”, urrou calmamente um dos presentes. Acrescentou:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“A mente tenta acionar sistemas que não existem neste corpo.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Foi a última coisa que Marcos ouviu antes de apagar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Interessante”, prosseguiu o ser. “A mente está se protegendo de algo que parece ameaçador. O mecanismo de defesa é acionado mesmo que o corpo esteja saudável, fora da influência da mente perturbada.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Uma mente forte, realmente. Mas forte em sua fragilidade.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Exato. Tenaz em sua capacidade de fugir.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Eram dois cientistas que conversavam diante do corpo inconsciente que abrigava a mente de Marcos Tertulião. Cada um deles tinha quatro braços e quatro pernas, couraça acinzentada e viscosa em pontos estratégicos, olhos panorâmicos em torno do encéfalo, boca discreta, porém elástica e um grande interesse no estudo do planeta Terra e seus habitantes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Na verdade, um planeta insignificante, onde tudo que poderia ser considerado importante já havia sido descoberto. Um planeta fácil, para estudantes abordarem em seus trabalhos básicos. Contudo, tal não era a opinião dos dois cientistas que montaram Marcos. Eles desejavam ter contato real com um daquelas engraçados seres, mas não seria possível uma viagem à Terra. Muito tempo, dinheiro e a certeza do escândalo, como era a regra naquele planeta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Marcos acordou sentindo-se enganado. De certo modo, tinha certeza de que existira um dia como um ser humano, que habitara a Terra, e desempenhara atividades maçantes. Era o que suas lembranças lhe mostravam, ainda que de um jeito vago e pobre. Mas tudo isto poderia ser mentira, já que, como disseram, havia sido criado há pouco.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Havia penumbra, mas não por culpa de seus olhos. Conseguia enxergar bem, e seu corpo funcionava em constante prazer. A vontade de viver floresceu lindamente entre os gorgolejos suspeitos de sua garganta. Pensou. Acariciou o pescoço com surpresa no tato, pois tamanha aspereza não lhe era familiar. Com a outra mão, afagou-se no peito, com a imediata sensação de que acariciava uma árvore. Com a outra mão, coçou o topo da cabeça e no lugar do cabelo havia geleia. A outra mão foi erguida diante dos olhos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Marcos então percebeu três coisas. A primeira era que havia sido solto. A segunda era que tinha quatro mãos. A terceira, era que a cor e textura de sua pele eram grosseiras e grotescas, o que fazia com que se parecesse um monstro. Mais do que isto, ele finalmente era um monstro, de modo que os sentimentos inapropriados de uma vida poderiam ser justificados e perdoados.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Girou para o lado esquerdo, imaginando que lhe daria mais agilidade, mas a verdade era que seu corpo estava perfeitamente simétrico. Saiu da cama e sem perceber, tinha quatro pés descalços no chão, que martelavam enquanto seu corpo se movia. Olhou para baixo e viu a curva do tronco, bastante acentuada, para trás. Com a visão panorâmica, viu ao redor de si quatro pernas finas e fibrosas. Muito elegantes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Contente com o corpo, passou ao exame do ambiente. Uma bagunça. Caminhava sobre a superfície espelhada de material desconhecido e via os traços do próprio reflexo. Um indivíduo desconhecido o olhava de volta, mas sempre tinha sido daquela maneira. Ao redor, inúmeras prateleiras sustentavam objetos cujas funções eram difíceis para um humano entender. Marcos, apesar da primeira confusão do olhar, conseguia intuir vagamente a utilidade das coisas. Tinha a ver com as necessidades do organismo estranho e, embora nunca lhe tivessem esclarecido seu próprio funcionamento, o corpo tinha um modo silencioso de preparar o intelecto para as atividades básicas de manutenção.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Apanhou um objeto no formato de cuia, e logo o colocou sobre a cabeça, na certeza de que tinha algo a ver com a geleia que ali estava. Subitamente, sentiu eletricidade por trás dos olhos e a imagem de inúmeros objetos estranhos e interessantes passaram a conversar com ele. Eles ofereciam sempre opções, ligar ou desligar, acender ou apagar, frio ou quente. Então, sentindo-se poderoso, iluminou o ambiente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Quando eles retornassem, teriam de lidar com indagações incessantes e apaixonadas sobre a própria existência. Seria um longo dia, ou tarde, ou noite. O tempo passou sem novidade. Ele percebeu que não precisava sentar-se, pois não se sentia cansado, e de todo modo não havia cadeira no recinto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Depois de um tempo que Marcos não poderia precisar, os dois retornaram, entrando após o deslizar surpreendente da porta oculta. “Como está se sentindo, Marcos Tertulião?”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Como acham que estou me sentindo?”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Os dois cientistas entreolharam-se sem muita perplexidade, aliás com total indiferença. Esta foi a conclusão de Marcos, mas a verdade, que ele ainda não tinha preparo para notar, era que o simples gesto de terem se encarado já os lançava longe da indiferença.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Você nunca existiu no planeta Terra. Nunca ocupou um corpo humano de verdade.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Mas e todas estas memórias?”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Precárias. Fatos que escolhemos como conteúdo mínimo para a mente. Mas nela há caracteres inatos, que nada tem a ver com lembranças e fantasias, pois não se tratam de conteúdos, mas sim estruturas mentais. São os nexos que organizam os conteúdos assimilados, de modo que passam a fazer sentido. Em todo universo conhecido esta dinâmica se dá de forma muito peculiar nos humanos. Então, não interessa sua experiência, mas sim as estruturas anteriores a ela, que nascem com a mente e que são, fundamentalmente, o elemento que a distingue como humana.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Marcos tinha lembranças de uma vida relativamente longa como ser humano. Não parecia haver parentes ou amigos, apenas pessoas sem rosto que se sucediam todos os dias, repetindo frases, como se um conjunto limitado delas fosse sorteado em todas as tentativas de comunicação. A repulsa sucedia-se contra si e contra os outros.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Porque me criaram como um humano que odiou tudo e todos?” indagou Marcos, acreditando atacar a raiz de várias de suas dúvidas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Não esperávamos que você se tornasse tão odiento, mas foi uma consequência interessante. À medida que inseríamos as memórias, cada situação despertava no molde da sua mente sentimentos de contrariedade e não havia razão para reprimi-los. Sua reação afrontosa ditava seu comportamento, e foi deste modo que desenhamos suas lembranças. É importante que perceba que, embora não tenham ocorrido exatamente do modo como constam de sua memória, todas as suas atitudes foram genuinamente suas, jamais interferimos em seus sentimentos e decisões. O processo de sua criação foi como jogar um jogo com uma inteligência artificial, de modo que o resultado do jogo seria ela se transformar em Marcos Tertulião. Antes de vir à nossa presença, você estava no lugar de sempre.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Não entendo.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Natural que não entenda, pois o lugar de sempre é um conceito próprio da nossa cultura. É o lugar de todas as coisas que poderiam existir, embora não necessariamente existam. As únicas coisas que estão fora do lugar de sempre são as impossíveis. O consenso quanto ao que está dentro e fora do lugar de sempre é absoluto, está em nosso instinto. Sua mente sempre foi possível, o que mudou foi apenas o fato de se ter tornado verdadeira.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Marcos sentiu-se realmente feliz com tais revelações. Não sabia ao certo a razão, mas tal mistura de urros e guinchos traziam significados cheios de conforto. Cores novas brilharam em sua mente, como se nunca tivesse sido humano. Ser ou não ser, não fazia diferença.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Entretanto, havia impulsos que o arrastavam para sua origem. A luta apenas resultaria em longas e profundas marcas de unhas na terra. O silêncio permaneceu, pois os pensamentos que se formavam eram-lhe embaraçosos. Conseguia separar as necessidades, e bem sabia que se tratava de urgência fundamentalmente humana. Sabendo já terem notado seu constrangimento, resolveu percorrer a estrada até o fim, formulando, enfim, o inevitável questionamento:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Como um camarada faz para transar por aqui?”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Um pouco admirado, sendo que tal emoção era apenas objeto de suspeita de Marcos, seu interlocutor devolveu outra pergunta:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Por acaso o senhor quer ter um filho? Quer originar um bebê, é isto?”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Não! Apenas copular.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Curioso. Certamente, não é uma exigência do seu corpo. Consegue entender de onde vem tal necessidade?”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Marcos pensou. Ele bem que gostaria de entender. Diziam sempre que era uma necessidade do corpo, tal como a fome, e o paralelo não era descabido, pois o tormento da abstinência merecia ser comparado à pior das privações. De todo modo, ali estava ele, em um corpo totalmente novo e diferente, com necessidades peculiares, mas ainda assim, atormentando-se para prestar serviços à espécie humana. Falou, enfim:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Esta necessidade vem da espécie. Parece que nossa mente é arquitetada para se reproduzir. A maioria dos contatos visam, direta ou indiretamente, contribuir para a continuidade da espécie, mesmo que já existam bilhões de pessoas no mundo. Seria assim ainda que faltasse espaço para todas. A espécie é uma credora truculenta e gananciosa, e todo ser humano está obrigado diante dela. Somente depois de pagarmos mais uma prestação é que podemos retornar, tranquilamente, a nossos afazeres. Mas não chega a ser um martírio, pois a espécie oferece a recompensa do prazer, que ilumina a expectativa e imaginação, estimulando ao cumprimento do dever. Na verdade, tal prazer é tão cobiçado que posto como a própria felicidade. As pessoas, em nome do progresso e da modernidade, criaram meios de gozar sem ter de pagar à espécie. Trapaça. A justificativa é satisfazer uma necessidade humana natural, mas ingerem-se substâncias artificiais que esterilizam temporariamente, e cobre-se o caralho com uma pele falsa na hora da trepada. A espécie humana, estúpida, jamais percebe que está sendo enganada. Isto é porque ela ainda trata seus filhos como se fossem crianças, isto é, macacos. Não acompanha seus avanços e continua impondo-lhes todas as necessidades dos primitivos como se indispensáveis. É correto afirmar que o conflito mais marcante do homem é contra sua própria espécie, pois esta é mãe tirânica, e o homem, filho desonesto, que pretende obter vantagens burlando o preço da natureza. O preço mais caro é a morte, mas as pessoas não podem simplesmente aceitá-lo como bons pagadores. Tiveram que inventar Deus, para negar a morte e transmutar seu real sentido de extinção para um de passagem. E esta passagem serve como fundamento para a negação da própria vida, pois promete uma outra, livre da carne, esta sim boa e verdadeira, enquanto o corpo serve de banquete para vermes. Quer-se sair da carne, voltar-se contra a própria espécie como um filho rebelde. Mas percebo agora que é jornada vã, pois as misérias da espécie não estão na carne e sim na mente. E nem se poderia dizer que os dois se identificam, pois a mente é diferente, é um plano que precede o corpo e o subjuga, usando-o como mero veículo.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;E o estranho ser, que Marcos já começava a considerar como um igual, respondeu:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Mesmo com séculos de observação dos humanos, jamais poderíamos elaborar tais questões desta maneira. Por mais agudo que seja o intelecto, há ainda locais insondáveis, nunca se podendo simular a mente de uma outra espécie para chegar a conclusões confiáveis. Não obstante, embora não possa auferir qualquer verdade, intuo que tais postulações são plausíveis. Para que tenha uma ideia da distância que nos separa, vou tomar emprestado sua interessante personificação da espécie para lhe esclarecer um pouco sobre a nossa. Serei breve embora completo, pois somos seres simples. Não somos originados por semelhantes como no caso dos humanos. Nós nascemos do planeta, somos formados dentro de rochas e brotamos em jazidas aos conjuntos. Desde o início, o que fazemos é caminhar sobre a dura superfície do mundo. E não há nada além disso que a espécie exija de nós, pois a superfície é impermeável e os fluidos fundamentais para a terra jamais penetrariam se não caminhássemos, aos milhões, incessantemente, sulcando o solo. Por isto nossas pernas são tão fortes e os pés tem estas garras pontiagudas. Os mais primitivos corriam com oito pernas e tinham a cabeça dura e incipiente. No início, muito esforço era desperdiçado, pois todos eram solitários e corriam de seu próprio jeito sem olhar para os lados. Mas então, um começou a notar o outro, a trocar experiências de modo rudimentar sobre onde, como e quando andar, e deste modo introduziram-se aprendizado dialético e organização. A função primordial passou a ser cumprida com maior eficiência. Os indivíduos se tornaram mais produtivos, de modo que houve excesso de mão de obra, mas a espécie foi generosa: ao invés de eliminar o excedente, buscou o equilíbrio com a gradual curvatura das costas, de modo que as pernas dianteiras se tornaram braços. Os contatos foram se tornando cada vez mais complexos, de modo que os olhos alongaram-se e a geleia do pensamento ficou mais fluida e profusa. Neste ritmo, chegamos aqui: sentimos que pertencemos à espécie ao sulcarmos a superfície, mas temos quatro braços livres e um intelecto avançado para aproveitarmos ainda mais o tempo enquanto caminhamos, desenvolvendo artes e tecnologias. Somos seres livres, mas não no sentido humano. Para nós, a liberdade é o alívio de jamais precisar escolher entre alternativas, pois todas as ações são naturais e raramente há ambiguidade ou obstáculo. Já entre os humanos, a liberdade parece ser o oposto disto. Você dizia que o ser humano trai a própria espécie e é verdade. Esta, enfim é sua liberdade e exige uma flexibilidade inata, que possibilita algo impensável para nós; o condicionamento. Por este meio, os humanos podem ser ajustados para realizar qualquer tarefa, não importa o quão desagradável e repugnante ela possa parecer a outros da mesma espécie, ou à própria espécie. Nós, por exemplo, não podemos fazer nada que contrarie nossa função primordial, apenas sendo suportável a vida enquanto cumprimos nosso papel de furar a superfície. Isto implica na impossibilidade de matar um semelhante. É o nosso postulado mais básico. Os humanos, de maneira impressionante, tem o pesado papel de perpetuar a espécie, mas conseguem convencer-se, em inúmeras ocasiões, que o melhor, para si ou para o mundo, é eliminar um semelhante por alguma razão qualquer. E conseguem executar atos que resultam em mortes, e conseguem continuar vivendo depois deles, e conseguem proteger-se das turbulências interiores e evitar o colapso. Nós não temos estes mecanismos.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Naquela noite, Tertulião teve uma sensação desagradável. Não conseguia dormir, sem saber se estava com insônia ou se aquele corpo simplesmente não tinha tal necessidade. Passou o tempo fazendo e refazendo a única coisa que se lhe mostrava possível, que era refletir sobre a própria existência. Ao que parecia, era um objeto de estudo e nada mais. Como sempre, ele queria ser algo diferente, sem saber ao certo o quê.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;No dia seguinte, foi esclarecida a finalidade de sua existência.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Uma vez mais, a porta deslizou e as duas figuras entraram, cheios de bons modos e respeito. Não houve mesuras, cumprimentos ou frases vazias. “Venha Marcos, tem algo que você precisa ver”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;E os seguiu pelos corredores, percorrendo o chão sulcado e deixando suas próprias marcas naquele mundo, as quais assemelhavam-se muito às anteriores, mas não eram idênticas, pois em sua história eram absolutamente outras coisas. Contudo, desconfiava que  nem o mundo, nem qualquer das espécies saberia notar a diferença.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Os corredores eram escuros, mas era tudo muito instintivo. Mesmo que se mostrassem diversos percursos, o corpo sabia qual o correto antes que os outros dois o apontassem. Uma incompreensível diretriz o guiava, algo invisível, como sinais captados por antenas. Enfim, conseguia notar odores, eram brutos, inéditos, pareciam cheiros fortes de sujeira, mas sem causar repugnância. Eram pura terra e pedra. O ambiente mudava, mas a temperatura permanecia sempre agradável. Seguiram, em passo apressado rumo à solidez da parede, e Marcos os seguiu sem se abalar, pois sabia que era outra das portas que deslizam.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;O quarto estava cheio de objetos, instrumentos e luzes discretas. Havia também, no centro, uma cama, com um deles ali deitado. Os outros dois se aproximaram com lentidão e reverência, enquanto Marcos permanecia junto à porta observando que havia nos passos muito sofrimento. “Ele está aqui, disseram ao deitado. Diante disto, Marcos foi ao leito, imitando a calma dos primeiros, na falta de alguma emoção sua para demonstrar. Enquanto ficou olhando do pé da cama, os outros dois prostraram-se aos lados do deitado, voltando a ele sua atenção. “Este é nosso amigo”, disse o da direita, cheio de pesar. “Ele está debilitado”, acrescentou o outro, hesitante.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Enfim, o deitado, movendo a cabeça entre urros e gemidos, passou a se comunicar. Vagamente, ele soava, pensou Marcos, como uma pessoa deprimida. “Meu amigo”, ele disse, olhando Tertulião bem nos olhos, “aconteceu comigo o impensável. Estava correndo pelas pedras no percurso habitual, quando deixei de sentir as pernas, perdi o equilíbrio e caí. Bati com força contra a rocha e rolei, chamando a atenção de todos que passavam. Desesperado, já sabia que havia algo errado comigo, pois aquilo não acontecia, jamais acontecia com ninguém. A tristeza foi grande quando não consegui me colocar de pé. Ainda no chão, já com a ajuda de amigos, olhei para as pernas e percebi que duas delas estavam quebradas, inúteis. Elas não resistiram.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;O da esquerda segurou firme uma das mãos do doente. Ele tinha algo a dizer, algo muito difícil, e Tertulião percebeu, surpreso, que os três pareciam na iminência de chorar.  “Agora... eu... eu”, tentou o deitado “Eu não posso mais sulcar o solo”, completou com intensa humilhação, da qual os outros tentavam consolá-lo inutilmente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Então, o da direita passou a esclarecer: “Descobrimos que ele sofre de uma imperfeição muito rara nas pernas, algo que atinge um em cada bilhão. As pernas não aguentaram a rotina de marcar as rochas e cederam, apesar de ser ainda um jovem.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Minha vida perdeu o sentido.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;E Marcos sentiu muita pena, assimilou com sinceridade a dor da criatura. Reconheceu nele um igual, e colocou-se a formular consolações, mas nenhuma delas parecia boa o bastante. O da direita aproximou-se de Marcos e, após o consentimento do debilitado, expresso por um olhar breve, ergueu o lençol que escondia as pernas. Imediatamente desviou o olhar, e também o da esquerda não foi forte o bastante para suportar a visão das pernas quebradas. Marcos olhou com atenção, mas não conseguiu distingui-las das pernas sãs. Não era médico e nem sequer um exemplar genuíno da espécie. O doente enfim tomou coragem para olhar, apenas para mexer a cabeça de um lado para o outro, querendo fugir daquela triste realidade. “Não tem cura. Não tem cura!” afirmou, exaltando-se. “Vou ficar imprestável para o resto da vida”. O da direita explicou : “Cada um de nós vive, em média, o equivalente a mil anos humanos.”. Era tempo demais, concordou Tertulião em silêncio. A referência a anos humanos ao invés de terrestres fazia o período parecer mais longo e desesperador.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Como bom homem, tudo que Marcos disse foi “Eu sinto muito.”Então, o infeliz teve coragem para pedir “Ajude-me.” Marcos perguntou o que poderia fazer.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Mate-me !”, foi a resposta. E foi imediatamente apoiada pelos que se postavam graves ao lado do doente. “É o mais certo a fazer. E você é o único que pode fazê-lo”, um deles disse, mas Tertulião já não pôde perceber quem era, pois surpreso e desorientado pela macabra solicitação. Matar? Matar? Retrucou com irritação:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Nem todos os humanos são assassinos!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Não estamos dizendo que sejam. Apenas pedimos que faça a coisa certa. Há um imperativo da espécie que nos impede de fazê-lo e não podemos desobedecê-lo. É impossível. Você é o único que pode matá-lo! Nem sequer é da mesma espécie!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Mas não podem passar a mente dele para um corpo saudável? Como fizeram comigo!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Isto o mataria. Não podemos matá-lo!” &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Então Marcos olhou para si mesmo e para aquele que queriam que matasse. Eram parecidos o bastante, e jamais poderia fantasiar que estivesse tirando a vida de um animal. Sentiu empatia, nele nasceu a afeição de um irmão. Não poderia destruí-lo, seria tão difícil que o entendessem? Por que tinham de ser tão fatalistas? Lembrava-se de ter visto pessoas passarem pelas piores tragédias sem desistir e perder a esperança. Não era por maldade que se recusava a matar, mas sim por piedade e esperança.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Temos algo em comum, Marcos.”disse o da direita. “Discordamos de nossa espécie, buscamos meios de burlar suas ordens. Não conseguimos matá-lo pela sua importância para o solo, mas a proibição persiste mesmo que ele não consiga mais cumprir sua função. O imperativo perdeu a razão de ser. Lutar contra a própria espécie é a sina de todos os seres que evoluem.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Diante da insistência dos três, Marcos desistiu de entender suas razões, apenas admitindo a necessidade que o outro tinha de morrer. E embora não se sentisse confortável em ser o carrasco, passou a respeitar aquela vontade e a reconhecer que era mesmo o único capaz de realizá-la. No fundo, não passava de uma questão de solidariedade. De todo modo, sacrificaria muito de si para isto. Já pensando no próprio futuro, propôs:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Aceito, mas quero algo em troca. Quero que cultivem a mente de uma mulher humana e coloquem em um corpo desta espécie. Quero participar do processo. Quero que ela viva comigo.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Mas não temos dimorfismo.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Não interessa! Esta é a minha condição! Quando ela estiver pronta farei a minha parte.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Os dois olharam-se indecisos, trocando expressões que Marcos já  conseguia interpretar como desanimadoras. “já gastamos quase tudo que tínhamos criando Marcos Tertulião. Agora deseja uma... fêmea? Não podemos arcar com isto. Além do mais, enquanto o elaborávamos, calculamos a conveniência de inserirmos uma mente feminina, e chegamos a conclusão de que seria arriscado demais. Uma mente humana masculina, e mesmo assim não qualquer uma delas, mas uma nos seus moldes, seria a única capaz de suportar a experiência e adaptar-se ao nosso planeta. Suponha que concordemos. Criamos uma mulher e ela logo depois se suicida ou, pior, perde a sanidade e torna-se perigosa. Estaríamos proibidos de eliminá-la. Não podemos, por favor, peça outra coisa.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Não me convenceram. Vocês já chegaram longe para ver este amigo morto, sei que estão dispostos a fazer um pouco mais!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Mas é uma hipótese que não está no lugar de sempre!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Como podem saber que não vai dar certo? Vocês são muito fatalistas, precisam aprender algo sobre esperança e agir sem se ater às possibilidades! Arriscar-se! E depois, não se esqueçam da dimensão do que me pedem. Acharam que minha mente humana não hesitaria diante do convite ao assassinato, é isto? Não é bem assim, será muito difícil para mim. Aquele que requer um sacrifício do outro, deve estar disposto a sacrificar-se também. Não se esqueçam ainda de que sou o único capaz de fazer o que pedem.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;O impasse durou por um tempo, mas quando o doente passou a dar razão a Marcos Tertulião, os outros se comoveram e concordaram em correr o risco.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Os dias seguintes foram emocionantes para Marcos. Descobriu muito sobre as próprias origens, todo o processo e os instrumentos, mesmo o tempo e as dificuldades das longas horas de trabalho. Realmente, tinha vindo ao mundo com muita dificuldade e devia valorizar a própria vida. Como tinham lhe contado, primeiro vinha a mente vazia, com as estruturas nuas, depois as experiências eram inseridas e a tela da máquina mostrava como a inteligência incipiente reagia. Ela seria introduzida no mesmo cotidiano de suas memórias, tratando com as mesmas pessoas, tendo os mesmos tipos de conversas. Marcos tentou disfarçar, mas emocionou-se cheio de orgulho e triunfo diante das reações dela. Teve os mesmos inimigos, os mesmos gostos e desgostos, reagiu de modo particular em algumas situações, mas as diferenças referiam-se essencialmente à feminilidade e acentuavam o desejo de tê-la ao seu lado. Não se sentiria solitário novamente, pois ela o compreenderia de maneira integral e também ficaria muito grata por finalmente ter encontrado alguém como ele. Ela o amaria, do mesmo modo que ele amava os signos que apareciam na tela da máquina.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Enfim, Marcos estava apaixonado. Não pensava em outra coisa, quase se esquecera do moço das pernas quebradas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Quando o processo já estava avançado, um deles entrou no quarto de Marcos e falou:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Desculpe. Não podemos continuar. Resolvemos reconsiderar nossa decisão, pois seria impossível. É um favor que fazemos a você também, acredite. Sofreria muito se prosseguíssemos com isto. Por favor amigo, pense em outro tipo de compensação.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Aquilo não poderia ser real. Marcos mergulhou na decepção e não encontrou palavras, pois inexistem palavras contra o máximo absurdo. Balbuciou, em urros baixos cheios de incerteza e lamento: “Tá bem, vou ver outra coisa”. Seguiu-se o silêncio e Marcos foi deixado só com seus pensamentos nebulosos. A frustração foi se transformando em raiva.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Os dois estavam com o doente quando Marcos irrompeu pela porta; socou um na cabeça e ele caiu morto; o outro, Tertulião fez cair de lado com um empurrão. Ficou no chão sem dizer nada. Marcos pulou nele e disparou uma rajada de golpes com as quatro pernas, estraçalhando o corpo. O enfermo pediu:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Mate-me! Mate-me!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;E Marcos respondeu:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;“Você nunca fez nada contra mim. Não posso matá-lo.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;E foi-se.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Conheceu os corredores do planeta, socando o chão sem se satisfazer pelo trabalho prestado àquela espécie. Transbordante de insatisfação consigo e com o mundo, pôs-se a conversar com os seres que encontrava.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;      &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;Milênios humanos depois, acontecia uma guerra em que os Tertuliões exibiam seu estandarte.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3675708-4392982330381987337?l=monte-de-palavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/4392982330381987337/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3675708&amp;postID=4392982330381987337&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/4392982330381987337'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/4392982330381987337'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/2010/01/mente-humana.html' title=''/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708.post-8745228249192149473</id><published>2008-06-14T10:06:00.000-07:00</published><updated>2010-01-11T05:41:30.015-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A CORRENTE&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           O gol passou pelo quebra-molas sem diminuir a velocidade e ouviu-se um som em seu interior, que era o da suspensão maltratada. Mas ela não se importava, a única ocupante, Marta, 39 anos, cabelo desgrenhado, um olhar alucinado por trás do pára-brisa imundo, a mais louca de quatro irmãs. O carro estava bastante maltratado, era um gol daqueles antigos, quadrados, vermelho, com duas calotas faltando, duas lascadas, riscos e amassados que denotavam guerra e selvageria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Era maio, os dias frios já se impunham há algumas semanas e o cinza se projetava como filtro da existência. O gol vencia a resistência do ar gelado acima do limite de velocidade e no rádio tocava uma canção qualquer. Não havia nenhuma emergência, mas de todo modo Marta era viciada no urgente, e tudo que fazia era temperado pela impaciência. Era como se estivesse fugindo. Primeiro da vida, mas inevitavelmente esta inconseqüente jornada a fazia resvalar em pensamentos de morte, ansiando também por escapar desta companheira macabra. Seus olhos fugiam da terra e dos vermes, mas não sabiam para onde ir, não parecia haver horizonte que lhes trouxesse conforto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Eram quase cinco e meia da tarde e seu filho de 8 anos, Luisinho, estava prestes a sair da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Marta era muito mal vista pelas outras mães, pois parecia uma louca perigosa. Não lhe deixariam fazer parte das rodinhas de mulheres queixosas que aguardavam suas crianças na porta do colégio. Ela mesma não se importava com isso, na verdade, nem havia se dado conta de que alguém fazia algum esforço para excluí-la do que quer que fosse. Marta vivia solitária em seu mundo, que era praticamente inóspito de alegrias. Tinha poucos gostos, mas não precisava deles para distrair a própria mente. Era distraída por natureza e seus grandes olhos castanhos logo desfocavam em privilégio dos pedaços de pensamentos que passavam por trás deles. Sua atenção era frágil e a tenacidade estava nos sentimentos, não nos pensamentos. É claro que as outras mães, após seus encontros em que, basicamente, reclamavam de seus maridos por todos os motivos imagináveis, chegavam em suas casas com seus filhos e, eventualmente, os aconselhavam a não brincarem com o filho da louca do carro vermelho, o estranho Luisinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Luisinho era bem diferente das outras crianças. Todos julgavam esta diferença como inferioridade, mas esta deletéria idéia ainda não havia penetrado em seu pequeno entendimento. Ele não era constantemente estranho, apenas se comportava de modo inesperado em algumas situações. O que causava pavor entre as mulheres do colégio era a mania dele mandar as pessoas irem tomar no cu, com fúria desconcertante, quando alguém lhe desagradava. E frequentemente se sentia contrariado pelas pessoas. Todos responsabilizavam a louca por este comportamento revoltante, mas era o menino que eles puniam, pois estava ao alcance e indefeso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Claro que Luisinho tinha alguns amigos, pois já demonstrava ter personalidade cativante, era um pequeno líder entre as crianças. Seu andar era de uma altivez curiosa entre seus pares, mas tudo se dava de um modo diferente quando caminhava ao lado dos adultos. Seus modos se alteravam com freqüência, era imprevisível. Às vezes submisso, às vezes rebelde, ninguém ainda o havia observado o bastante para descobrir o que exatamente modulava seu modo de ser. Quando agia de modo submisso, com passos tímidos, olhar fugidio e palavrinhas trêmulas, todos aprovavam e repetiam que aquilo era ser bom. Então ele seria um menino bonzinho, alguma coisa a ver com Jesus Cristo. A mãe era a única que não cobrava bondade dele. Tudo que ela queria era atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           A aula de matemática estava entrando em seus minutos finais e Luisinho estava perdido em frágeis devaneios. Fantasias de criança. Ele parecia um boneco sentado, exceto por sua respiração lenta e profunda que lhe dava um pouco de humanidade. Os olhos estavam arregalados e paralisados, com o pequeno brilho trêmulo que parecia a lua refletida no lago. Para ele, ninguém mais estava no mundo. Lembrou que tudo existia quando a sirene tocou anunciando o término da aula. Viu crianças indo em direção à porta com as mochilas penduradas em um dos ombros, era algo que se repetia todos os dias. A professora não queria mais saber dele e nem de ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Luisinho guardou o lápis, a borracha e a régua no estojo, mas com serenidade. Não sentia vontade de correr para a liberdade como seus colegas, que àquela altura já deveriam estar cruzando os portões. Luisinho carregava sua mochila com naturalidade, sem empolgação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Marta quase derrapou na última curva antes do colégio, mas ela não estava tão atrasada. A aula havia terminado há cerca de três minutos e Luisinho já esperava na calçada após um distraído descer de escadas. A mãe parou o carro no meio da rua e ficou buzinando, mais do que precisava, chegando ao ponto de desconfiarem que ela queria provocar alguém. E queria, era uma gorda, a mãe da Angélica, a gordinha da classe. Marta não ia com a cara dela e sempre buzinava quando a via. Luisinho foi correndo para o carro, abriu a porta, dobrou o banco e foi sentar lá atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “Como foi a aula, filho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “A mesma merda de sempre, mamãe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “Que bom.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           A mãe estendeu uma garrafa de plástico com leite para Luisinho, ela sempre trazia. Ele bebeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Já passavam da cinco e meia da tarde e estava ficando difícil ver as coisas. O mundo estava ficando apagado, sem graça e o trânsito piorava a cada minuto. Os pedestres iam diminuindo e as conversas do dia de trabalho davam lugar às buzinas e aos insultos do homem moderno. As árvores balançavam ao redor das ruas, mas ninguém estava dando a mínima. O gol vermelho pegou um caminho diferente, que Luisinho ainda não conhecia. Ficou curioso com a idéia de não voltar diretamente para a solidão de sua casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “Onde estamos indo mamãe?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “A mamãe vai visitar um amigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Pegaram a rua principal e se afastaram do centro da cidade. A via se desobstruiu e logo estavam num bairro residencial. A noite ainda não havia se estabelecido quando Marta estacionou o gol, virou os olhos para o filho e pediu que a aguardasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Ela saiu e andou pela calçada sob os atentos olhos do menino, que agora estava de joelhos no banco para vê-la pelo vidro traseiro. Havia um homem encostado no muro, que começou a falar com a mãe. Depois de algumas palavras, o homem olhou na direção do carro e flagrou o menino que espionava, encontrou seus olhos e seu cabelo, que parecia uma cuia, um capacete, emergindo do banco de trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Luisinho o encarou com curiosidade. O menino ficou entusiasmado, seu pequeno coração batia ao ritmo de grandes sentimentos. Ele olhou para aquele homem e se perguntou se poderia ser um novo amigo. Seus olhos arderam com lágrimas sem choro, sua respiração acelerou e sua mão direita apertou as bolinhas de gude no bolso enquanto a esquerda se apoiava no banco. Sua expressão era tensa, perturbada, imprópria para uma criança. O pai de Luisinho estava morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Os olhos do homem enfim encontraram os de Luisinho, mas não responderam com o mesmo tipo de emoção. Ele se retraiu, escapou ao infantil convite, encabulado, desviando o rosto e recuando um passo. Marta olhou para trás para saber o que havia deslocado sua atenção, mas logo retomou um diálogo no qual se poderia notar, mesmo fora do alcance do som, seu tom suplicante, a mão direita aberta como uma garra, projetada na direção do sujeito como que implorando para que não fosse embora. Não adiantou, e de longe puderam ser vistas as palavras que ficaram engasgadas em Marta, que não puderam ser ditas e assim tentavam escapar pelos olhos e pelas ventas. Logo que ela iniciou seu retorno ao carro, Luisinho voltou a se sentar e se pôs a observar suas bolinhas de gude. Permitia que as três se movessem na palma da mão, atritando-se entre si como que para triturar o ar. Pegou uma delas, a verde, e a trouxe bem rente ao olho direito, voltando a cabeça na direção do poste, já aceso em meio à escuridão do universo. Ficou, como sempre, fascinado pelo brilho verde dentro da bolinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Foi interrompido quando a mãe abriu a porta e se sentou. Não disse nada, mas o menino já havia aprendido a captar sua tensão e sabia quando as coisas não estavam bem. Bastava olha-la, que era sempre como se a luz refletida nela trouxesse o contágio por um sofrimento terrível. Vinha então a febre do desespero, que fazia ranger os dentes. A frustração moldou o rosto do menino e ele sentiu suas energias se perderem, assumindo uma postura encolhida no banco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           O carro arrancou bruscamente e o menino sentiu forças o oprimindo contra o banco e lhe tirando o ar. Sua dificuldade em respirar ficou mais aparente e sua mãe finalmente percebeu pelo retrovisor os olhos do filho vermelhos e semi-cerrados. Ela ficou brava, mas não disse nada. Seguiu em direção à farmácia para comprar qualquer descongestionante, pois já estava acostumada com os problemas respiratórios do filho. Ele, por outro lado, sentia que não conseguiria se acostumar com aquilo, nem em um milhão de ataques. Buscava um modo de superá-los respirando com força, era assim que tentava se impor. Mas então tudo parecia borrado e ele perdia o equilíbrio, perdia a batalha e desistia de respirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Momentos depois, o carro estava estacionado e a mãe pingava o remédio em suas narinas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “Pronto, agora você vai respirar melhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Funcionou mais ou menos. Luisinho já havia aprendido que tudo na vida era mais ou menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           O carro voltou para o centro e refletiu as luzes da cidade, e pessoas podiam ser vistas passeando e comendo churros na praça. Os de doce de leite eram os favoritos de Luisinho. Logo ele percebeu, com certo pesar, que estavam voltando para casa. As luzes iam diminuindo no sentido bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Cerca de quinze minutos depois, Marta estacionou o gol na frente da casinha em que moravam. Houve silêncio por um momento curto, apenas a respiração dos dois, cada um distraído em seu mundo. Até que a mãe pediu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “Entra, filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “Vou fazer a lição de casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           O menino saiu, destrancou a porta de casa e entrou. Marta ficou no carro pensando no que ia fazer. A rua estava deserta, escura, esquecida pelo mundo. Não se ouviam nem insetos, nem corujas, nem carros. Ela sentiu vontade de expandir os sentidos, fuçou no porta-luvas e achou o que queria. Acendeu e começou a fumar, deixando-se escorregar no banco do motorista. Observou a fumaça dançar rente ao teto do carro, achou que cada nova baforada subia para se engalfinhar com a outra numa espécie de luta. Distraiu-se com isso, o cigarro estava acabando e ela o jogou pela janela. Tudo em volta tornou-se turvo e passou a deixar um rastro de acordo com o movimento de seu pescoço. Sentiu sono, acomodou-se de novo no banco e sua espinha se rendeu à gravidade como a de todos que desistem de testemunhar os dias e as noites. O olhar paralisou e foi perdendo intensidade, até que as pálpebras caíram. Por um momento, conseguiu perceber a escuridão, sentiu um arrepio e uma sensação de calor nos músculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Depois de não se sabe quanto tempo, acordou transpirando e apavorada, cercada por janelas embaçadas. Em meio a rápidos batimentos, lembrou-se de tudo que havia visto de olhos fechados dentro daquele carro. No sonho, sentiu-se mergulhada em alguma coisa no meio da escuridão, algo gelado e pegajoso que fazia ruídos nojentos quando ela se movia. Estava deitada, ergueu-se e conseguiu notar que estava coberta de lama. Olhou em volta e não conseguiu descobrir onde estava. Não era na cidade, era em algum outro lugar, um lugar que ainda assim não era estranho, que tinha certo impacto emocional sobre ela, um lugar onde já havia estado, mas apenas durante sonhos e delírios. Era um local vasto, um vale e era noite. A lua estava sempre cheia e muito maior que normal era quase uma espécie de Sol noturno, permitindo uma boa visão de tudo. A lama dava nas canelas e ela andava arrastando os pés contra a resistência do barro. Caminhou por alguns momentos e notou uma forma estranha adiante. Era um monte de argila disforme, ressecada, estranho. Mais adiante havia outro. Ela o observou e detectou marcas de dedos, como se alguém tivesse mexido naquilo antes de secar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Continou andando e viu uma terceira forma. Esta era intrigante, claramente uma tentativa parca de retratar um ser humano, uma mulher. Estava lamentavelmente deformada, um dos braços havia caído e o rosto estava distorcido em feiúra e agonia. Marta sentiu repulsa e continuou em seu caminho. O que viu em seguida foi o que mais a chocou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Tinha um homem trabalhando em um monte de argila, modelando-o. Ele não parecia ter muita habilidade, seus únicos instrumentos eram as mãos, grosseiras e impacientes. E ele fazia força sobre o monte de argila, quebrando arestas e ignorando detalhes. Não percebeu a presença de Marta, ou talvez tenha optado por desprezá-la. Estava esculpindo uma mulher. Depois de um tempo, o homem percebeu que o esforço era inútil, pois a argila já havia endurecido. Ele não conseguiria mais moldá-la, não poderia fazer mais nada e se afastou, andando para longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Marta aproximou-se da estátua com muito desconforto, alternando o olhar entre a forma e as costas daquele homem. Sentiu tontura quando percebeu que a estátua era ela própria, imperfeita e deformada. Muito mal feita, mas o rosto era inconfundível em sua agonia defeituosa, em sua ânsia pela própria destruição. Começou a chorar e correu na direção do homem cheia de fúria. Agora ela reconhecia o pai dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           Foi quando saiu do devaneio e quase bateu a cabeça no teto do carro. As lágrimas se misturaram ao suor e ela saiu do carro longe de ser senhora de si. Cambaleou destrambelhada na direção do quartinho em que Luisinho ficava e o interrompeu no meio do dever de matemática, abraçando-o com força. Ajoelhada, abraçava Luisinho e o beijava. Apertou suas bochechas quase a ponto de machucar, puxando e repuxando. Agarrou-lhe os ombros e disse, chorando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           “Tudo vai ser diferente! Eu juro, juro que vai ser diferente meu filho.... eu juro!!!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Por cima do ombro da mãe, Luisinho chorava e, pela janela aberta, admirava o forte brilho de uma estrela. Na verdade, a estrela, que um dia havia brilhado a anos-luz dali já estava morta. Luisinho não tinha como saber, mas sentia que estava sendo enganado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3675708-8745228249192149473?l=monte-de-palavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/8745228249192149473/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3675708&amp;postID=8745228249192149473&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/8745228249192149473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/8745228249192149473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/2008/06/corrente-o-gol-passou-pelo-quebra-molas.html' title=''/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708.post-8754413175064324430</id><published>2008-04-28T12:46:00.000-07:00</published><updated>2010-01-11T05:41:49.177-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;OS ÚLTIMO RAIOS DE SOL&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda acordou insegura, muito mais do que estava acostumada. Ela virava na cama e conseguia identificar com precisão o motivo de seu tormento. Não chegava a ser nenhuma tragédia, mas era um incômodo, uma sensação que sempre a perseguiu, mas que, naquele momento, vinha sem rodeios, sem máscaras, para amedrontá-la. Era, na verdade, um medo que ela poderia evitar sem muito esforço. Mas ela optou por vivê-lo em sua plenitude, como um luxo, uma fraqueza proibida, uma graça dada a si mesma para sustentar um antigo vício por emoção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um antigo vício, que Amanda nunca quis largar. Frágil na aparência, na personalidade, no pensamento, mas ainda assim, jovial e radiante, todas as fraquezas se confundiam com sua característica delicadeza. Havia algo de atraente em sua vulnerabilidade, o que explicava a alta incidência de cafajestes em sua lista de amores passados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até quando insistiria no erro? Até o momento em que percebesse que errava. Talvez nem fosse necessário, talvez tudo que ela precisasse fosse um dia realmente significativo com alguém. As coisas não precisariam ser perfeitas, apenas intensas e realmente, realmente significativas. Era tudo o que ela acreditava desejar. Mas também temia que esta fosse mais uma ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pernas permaneceram imóveis, mas seu tronco se elevou e a cabeça ficou à altura da janela, permitindo que a luz do sol lhe desse um contorno fosforescente, iluminando os fios castanhos claros que se impunham contra o ar úmido da noite que se fora. Amanda bocejou, remexendo o corpo e soltando um lento e prolongado gemido de preguiça. Alongou os músculos, enquanto olhava pela janela tentando ver o cachorro que latia lá fora. Não conseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se de vez e ficou andando de um lado para o outro do quarto com seu pijama horrível de homem. Nada de camisola, ela sempre preferiu a camisa e a calça larga, para poder deslizar lá dentro, andar pisando na barra e arreganhar as mangas compridas, em gestos de maestra descordenada, enquanto contava alguma história interessantíssima. Mas ela não ficava mal nestes pijamas, ficava adorável, a gola em v deixava aparecer um ombro e suas formas femininas se revelavam quando o fino pijama era assoprado pelo vento, ou quando corria sem se preocupar, no esplendor de seus vinte anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda andava de um lado para o outro todos os dias depois de acordar. Era a primeira coisa que fazia, para pensar, dizia. Pensar sobre o quê? Pensar, ora! Sobre as... coisas, a vida, qualquer coisa que fosse importante para ela na hora, tipo algum sonho, ou pesadelo, ou um compromisso daquele dia. Quando pensava em algo bom, andava com entusiasmo, sufocando risinhos com as mangas do pijama. Quando era algo preocupante, marchava séria, mordendo as unhas (até desistiu de mantê-las feitas), e com as sobrancelhas arranjadas de um modo que deixaria alguém com pena, desde que sensível e observador. Aliás, estas eram características que ela procurava por toda parte, mas falhava em encontrar. Naquela manhã, estava nitidamente taciturna, com a respiração difícil, os grandes olhos negros viajando de um canto do quarto ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se sentia profundamente insegura, por um motivo nada incomum, nada mirabolante. Havia sofrido demais em seu último relacionamento e, depois de meses de uma independência fingida, começava a ser arrastada uma vez mais para aquele novelo de sensações que já apresentava uma prévia com o ataque da velha ansiedade. Tinha a crença de que tudo daria errado mais uma vez, algo que seu exagerado instinto de auto-preservação elevou à categoria de neurose, da tortura de estar sempre se preparando para o pior, embora também acreditasse ser inútil aquele tão dispendioso recrutamento de energias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, é claro, aquela manhã apreensiva era uma forma de seu corpo lhe avisar que as coisas estavam ficando sérias, que os laços estavam se estreitando e que os próximos eventos de sua vida poderiam vir a ocupar um lugar nas memórias mais especiais, eventos que dividem a vida e desencadeiam uma torrente de sentimentos quando rememorados. Para pessoas como Amanda, sentir saudades de um passado emocionalmente manipulado é mais que um hábito, é uma obrigação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com estranhas emoções regulando a garganta, Amanda tomou seu banho, trocou-se e foi pegar algo para comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amarre os sapatos Amandinha”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agachou-se graciosamente para amarrar os cadarços, enquanto tentava fazer com que os pés tocassem terra firme. Os olhos voltaram-se na direção dos tênis, mas os atravessaram para fixar um ponto além deles, algo que não estava ali, mas sim em sua mente. Ergueu-se e foi abrir a geladeira. Decidiu que ia tomar um leite bem gelado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou sentada em frente de casa, reparando em como tudo estava tão brilhante e quente. Era uma bela manhã de sábado em que se podiam ouvir os pássaros e batimentos cardíacos. Do fundo, bem longe e esporadicamente, vinha aquele som característico da atmosfera sendo rasgada por um carro, as rodas passando por pedrinhas e provocando estalidos, sobrepostos por alguma moto barulhenta. Amanda adorava o som dos carros à distância, era algo que mexia com sua imaginação e encontrava ressonância afetiva em suas veias, algo que ela não conseguia compreender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava atrasado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentou-se tentando evitar que sujasse a calça. Viu o jornal dobrado ali no chão, mas logo notou que não queria saber o que acontecia no resto do mundo. Suspirou e apoiou o queixo nas mãos. Repreendeu-se levemente por ser tão fresca. Ela bem sabia que não tinha problemas graves de verdade e que fazia drama. Mas por que todo aquele tédio? De onde deveria retirar motivação? É, a vida é assim mesmo, concluiu. São uns cinqüenta anos para descobrir do que você realmente precisa e outros cinqüenta para tentar conseguir. Mas a buzina do carro interrompeu as divagações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos Amanda!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tchau mãe, estou saindo!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá bom!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora é hora de disfarçar o nervosismo, pensou. Sentou no banco da frente e recebeu um beijo no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amanda, você vai ter que me mostrar o caminho, porque eu não sei direito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro, nem é tão longe. Segue reto na avenida, atravessa o centro, é a fazenda logo em seguida, fora da cidade, tem uma entradinha de estrada de terra, eu te mostro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Legal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro seguiu, servindo como tela para os reflexos das árvores plantadas nos dois lados das ruas. As janelas estavam abertas para que o vento entrasse e bagunçasse os cabelos lisos de Amanda, que davam no ombro. Pouco foi dito durante a viagem, mas ela teve, em inúmeros momentos, a sensação de ser olhada, enquanto observava a rua e as pessoas. E isto, para ela, dizia muito, pois sempre se empenhou em captar sinais. Nesta sua ânsia, não percebia o quanto ela mesma dava bandeira de seu próprio interesse. Rafael percebia sua apreensão pelo modo como suas mãos delicadas viajavam de um lado para o outro tremendo sutilmente. Mas ele não era o tipo de sujeito que se acharia na dianteira da relação por causa destes indícios, não era alguém capaz de traçar um plano para manipular a pobre garota. Ele mesmo estava nervoso. Mantinha a cabeça voltada para a rua, mas a observava com o canto do olho, chegando a virar levemente o pescoço quando tinha a impressão dela estar perdida em pensamentos. Por mais sutil que tenha sido esta manobra, ambos sabiam o que estava acontecendo naquele carro e sabiam que estava deixando de ser implícito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos tiveram dúvidas semelhantes durante o percurso. Por uma destas coincidências curiosas, os dois refletiram sobre quão estranho é o amor. Amor? Não seria cedo demais para pensar nisto? De qualquer modo, pensaram, não era à toa que tantas e tantas pessoas encaravam o amor como um jogo: não mostre suas cartas, blefe, fique à espreita, quando a oportunidade aparecer, e logo ela aparece, ataque pra valer. Xeque-mate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, se o amor era mesmo um jogo, aqueles dois eram amadores, e não passariam da primeira rodada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou comprar um sorvete pra você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sério mesmo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigada!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles já estavam no centro. Ele guiou até a sorveteria, estacionou e saiu. Amanda ficou lá olhando para a praça. Uma praça numa manhã de sábado tem seus encantos. É algo difícil de explicar, um artista, por exemplo, não poderia registrar tudo numa tela. Você tem que estar lá para sentir e entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas porque ele não a chamou para a sorveteria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo ele voltou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um Sunday de morango? Como você sabia? Eu nem falei o que queria.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu via você na escola sempre tomando esse sorvete, então eu sei que é seu favorito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael era sim um rapaz observador, mas apenas quando devidamente motivado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles seguiram. Amanda sentou-se sutilmente virada na direção da janela que, aberta, deixava que o vento equilibrasse o calor dos raios de sol. Olhava para o sorvete, mexendo com a colher de modo que a calda de morango formasse um redemoinho. Girava e girava, de um modo hipnótico e, dentro de um segundo, tudo que existia eram seus pensamentos. São tempos complicados, pensou. Tempos complicados em que um sorvete não significa mais apenas um sorvete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som do vento entrou em seus pensamentos e ela se refrescou com mais um pouco de sorvete. Estavam no centro e as crianças andavam de mãos dadas com os pais, aproveitando os últimos dias de felicidade simples. Se ao menos eles soubessem. Amanda jogou o copo fora e acertou em cheio a lixeira, apesar do movimento do carro, do vento e da possibilidade de Rafael se ofender com aquele gesto provocador. Ela o olhou desafiadora, o queixo empinado, o olhar ardendo de travessura e as sobrancelhas tentando passar cinismo, sem conseguir. Rafael olhou sem dar qualquer mostra de preocupação, não disse nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O maior incômodo era a intimidade que crescia entre os dois. Apenas o desgosto poderia constrangê-la. Era disto que tinham medo. Tinham medo de tudo, inclusive de se sentirem idiotas. E isto é mais ou menos o que significa amar, superar a resistência contra ser um completo idiota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É ali Rafael. Tá vendo a estradinha de terra? Então, é ali.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos lá!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o carro fez uma curva deixando um rastro no barro, marcas que logo seriam esquecidas. O sol ainda reinava supremo nos céus e esquentava as cabeças dos dois enquanto saíam do carro sem encontrar palavras para dizer, ou sentimentos para observar. Caminharam sem muito jeito, sentindo vontade de dar as mãos, mas achando isto muito inadequado para a situação. Era apenas uma vontade difícil de explicar, e era muito mais forte em Amanda, que contemplava, saudosamente, a fazenda de seu avô e imaginava os cavalinhos galopando com ela menina montada, numa velocidade alucinante. Olhou para Rafael e era como se visse um alienígena, alguém que destoava do cenário familiar. Ele pareceu muito menos significante para ela. Isso a desanimou um pouco, mas ela esperava recuperar todo o fascínio quando ele fizesse algo inesperado e desse um sorriso daqueles que tanto lhe agradava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O avô saiu para recebê-los:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dindinha, amarre os sapatos!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela agachou amarrando os cadarços enquanto os fatos de sua vida passavam por cima de sua cabeça, imagens da pequena Amanda andando de mãos dadas com o avô pelo pasto, vendo os porcos, os achando nojentos e sentindo o estômago revirar diante do inconfundível cheiro de merda. E acima daquilo tudo estava o sorriso do avô, largo e brilhante, ensinando-a que as coisas não deveriam ser levadas a sério, que qualquer dia de bosta poderia, de repente, ser o melhor da vida de uma pessoa. Por anos ela esperou que aquele sentimento voltasse, mas os dias de merda insistiam em ser nada mais que dias de merda. Pronto, um laço firme, dessa vez poderia correr e atolar o pé na lama sem que precisasse se curvar para amarrar de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vovô Rodrigues a chamava de Dindinha, o que fazia o maior sentido quando ela era uma menininha tonta. Mas agora ela tinha crescido e se tornado uma mulher interessante e independente, sentindo ser inadequado o apelido. Até pensou em repreender o avô na próxima vez em que ele a chamasse assim, mas logo desistiu da idéia diante da cristalina certeza de que ele riria na cara dela e a constrangeria com alguma piada infame, incompreensível para alguém que ainda não tivesse, no mínimo, atingido a casa dos sessenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael não se sentiu incomodado com a presença do vovô Rodrigues. Era uma das características do velho, a de não colocar medo nos outros homens, a de ser subestimado e apunhalar seus desafetos quando estivessem desatentos. Rodrigues, até aquele momento, não havia visto em Rafael um inimigo, mas sim um jovem como ele próprio fora, o que lhe despertou suspeita. Nos últimos meses, todo moleque que via lhe lembrava a si mesmo, mas era impossível que houvesse tantos jovens Rodrigues por aí, não era fácil encontrar sujeitos tão sensacionais quanto ele circulando em gerações tão próximas. Deveria estar senil, perdendo as estribeiras, ou quem sabe, apenas precisando de mais uma consulta no oftalmologista, um novo par de óculos ou uma nova perspectiva sobre a vida. Rodrigues riu quando ouviu certa vez que deveria buscar seu eu interior. Riu porque achou uma besteira total, que negócio era aquele de “eu interior”? Eu é eu! Eu só tem um, o resto é os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E aí, seu Rodrigues, tudo bom?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo bom, fio.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três entraram para almoçar, e tinha a comida típica de fazenda. Estava deliciosa. O velho dormiu na cadeira depois da pratada descomunal e os dois ficaram sozinhos, com o dia inteiro à disposição, sem saber o que fazer com aquele tempo. Amanda resolveu, depois de alguns breves devaneios por através da tela que protegia contra mosquitos, sair para uma volta, tendo sido acompanhada por Rafael que apenas esperava ser conduzido em território estranho. À soleira da porta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amanda, amarre os sapatos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela baixou-se sem hesitar enquanto olhava para frente, para o velho balanço que gingava ao vento. Parecia uma provocação, temperada pelo ar brusco da inércia do banquinho, chacoalhado em múltiplas direções. Rafael logo encontrou o que fixava a atenção da menina e para lá se dirigiu, com a clara intenção de fazer parte daquele quadro emoldurado pelas mechas castanhas de Amanda. E ela ficou parada, como leoa que observa a presa na máxima concentração, com os olhos apontando para Rafael que se balançava com uma cara forçadamente imponente, como se fosse um grande estadista entretido por planos complexos que envolviam manobras políticas arriscadas. Amanda ficou fascinada, pois logo entendera a falta de sentido daquele ato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos de Amanda subiam e desciam lentamente em sentido inverso aos de Rafael, como se houvesse um fio ligando as pupilas e ela se ergueu no exato momento em que ele pulou do balanço. Reparando sempre em seus olhos, Rafael foi apanhar caquis e pôs-se a comer. Amanda assistia a tudo aquilo maravilhada, sem que nada precisasse ser dito. Ela estava sentindo que tudo estava em seu perfeito lugar, como se o passado se repetisse exatamente como deveria. Era como se tudo fosse revivido por meio de outra pessoa, uma pessoa que tentava encontrar um meio de entrar em seus mais caros e confusos sentimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele apanhou a mão dela e a arrastou correndo, forçando-a a acompanhá-lo, ofegante. Veio aquele cheiro de merda, seguido pela saudação dos suínos, com olhares apagados, distantes, bestiais e sem ambigüidade. Automaticamente ela buscou os olhos de Rafael que a abordavam com um sorriso perfeito, tranqüilizador algo que ela não via há anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coração de Amanda bateu mais depressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi desacelerando à medida em que o sol se aproximou do horizonte e avermelhou o dia. Por melhores que tivessem sido os eventos até ali, era claro que faltava algo à Amanda. Ela ainda não havia capturado a sensação que buscara por anos e estava começando a desconfiar que aquilo tudo havia morrido com sua infância. Os porcos já não eram mais os mesmos. Seu avô não era mais o mesmo. O balanço estava velho, suas correntes já até tinham sido trocadas. Até o Sol parecia um impostor. Rafael representava o desconhecido, algo do que ela tinha vontade de fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uma longa caminhada, chegaram à área proibida. A adega do vovô Rodrigues. Na hora, Amanda viu do que se tratava e não teve problema nenhum em tomar a decisão de consumir meio litro de vinho. Fez uma concha com as mãos para receber a cachoeira que se acendeu em vermelho, fresca, suavemente sonora, direto para o seu espírito. Fechou os olhos e deixou que o vapor subisse de seu estômago em todas as direções, passando por seus poros e arrepiando seus fios castanhos dourados pelos últimos raios de Sol. Deixou-se cair de costas com os braços abertos, os olhos ainda fechados e a cabeça começando a rodar em um carrossel em gravidade zero. Sentiu toda leveza possível e passou a estar num mundo imaterial em que tudo se curvava à sua vontade. Abriu os olhos com a sensação perfeita de que ninguém poderia pará-la, pois estava em total sintonia com as coisas, absolutamente alerta, sem perder um segundo do que acontecia. Não conseguiu distinguir o mundo com os olhos, pois havia uma lâmina de lágrima que tudo filtrava. Apenas formas, luzes e a sensação de flutuar no oceano. Algo estava mudando. Sentiu o rosto com as mãos e ele pareceu mais palpável do que nunca, passou as mãos pelo corpo com lascívia e celebrou mentalmente sua existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não conseguiria colocar em palavras o que começava a acontecer dentro de si, mas era claro que havia uma idéia profunda, algo silencioso que por anos orquestrou aquela experiência emocional. Com os últimos raios do sol, Amanda se desintegrou, e finalmente nasceu um ser humano.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3675708-8754413175064324430?l=monte-de-palavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/8754413175064324430/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3675708&amp;postID=8754413175064324430&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/8754413175064324430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/8754413175064324430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/2008/04/os-ltimo-raios-de-sol-amanda-acordou.html' title=''/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708.post-7253476418109564286</id><published>2007-11-13T18:15:00.001-08:00</published><updated>2007-12-18T02:46:05.068-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O DIA EM QUE JORGE FICOU BRAVO E RESOLVEU FALAR UMAS VERDADES.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Jorge se mudou para a cidade vizinha, que era um pouco maior que a dele, aos dezoito anos de idade, para estudar agronomia. Já no segundo ano da faculdade, aconteceram coisas que jogaram a vida dele para fora dos trilhos. Isso quer dizer que a situação piorou ainda mais, pois a vida dele já era algo parecido com um trem desgovernado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um rapaz que tinha sempre os olhos caídos e cheios de raiva contida, a boca que não sorria paralisada em gesso e um rosto que parecia comum nas fotografias. Apenas nas fotografias, pois, na dinâmica da conversação, a expressão de Jorge era interpretada frequentemente como escarnecedora. A excessiva sutileza com que deixava emoções vazarem passava uma falsa idéia de indiferença. Suas falas, cujos teores quase sempre estavam em desacordo com a característica entonação serena, eram tidas como manifestações do mais irritante cinismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginando-se provocadas, as pessoas retrucavam, mas Jorge não se deixava levar, não perdia a calma. Um de seus traços marcantes era a atitude de sempre olhar para a frente, o que incluía a recusa em voltar atrás para pedir desculpas, ou explicar que havia sido mal interpretado. Seu aparente descaso com a opinião alheia causava perplexidade. Sua personalidade era um mistério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morava em uma pensão com mais seis estudantes e não era muito apreciado por lá. Nunca destratou ninguém, mas também não se esforçou em fazer amigos, o que levou todo mundo a pensar que ele era um daqueles cuzões que se achavam superiores. Todos com exceção de Matheus, que era alguém que ele poderia chamar de amigo. Faziam comentários atravessados, que foram se tornando cada vez mais altos e indiscretos, como que implorando por uma reação. Eles precisavam saber, Jorge era amigo ou inimigo? O que será que ele pensava sobre eles? Mas nada, ele apenas falava o essencial e passava a maior parte do tempo estudando e assistindo a aulas. Não freqüentava as festas e, ao que parecia, não corria atrás das meninas dos outros cursos que pintavam por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo ano, Jorge já havia se consagrado como homem sério e estudioso. Parecia ser bem mais velho. A última semana de provas estava prestes a começar, e Jorge se dirigia à pensão, com a ansiedade que sempre o atacava nestes tempos. A preocupação com as notas era uma das únicas vulnerabilidades que deixava transparecer, e isto conquistava a simpatia de alguns professores, ao mesmo tempo em que piorava sua reputação. Assim que chegou em frente ao prédio, encontrou um cara sentado próximo à porta com um violão. Era uma rodinha com dois homens e três mulheres, que Jorge não conhecia. Para falar a verdade, ele estava pouco se lixando para quem eram, a única coisa que fez com que parasse para lhes dar atenção foi o barulho que faziam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Bléin!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu prefiro SEEeeer!&lt;br /&gt;Essa metamorfose ambulante!&lt;br /&gt;Eu prefiro SEEer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bléin, bléin!”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;“Pessoal, eu preciso estudar, vamos parar com o barulho, por favor”, pediu Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os jovens sentados o olharam cheios de surpresa e extremamente incomodados com aquela audácia. “Não é possível”, seus olhos diziam, “que cara mais cabaço, ah, faça-me um favor, vai pra puta que o pariu, colega!” Mas nenhuma dessas palavras foi realmente conduzida pelo ar, apenas transitaram pelas ondas do pensamento de cada um. Sempre tem o cara que é muito bom em tomar a iniciativa em situações como esta, mas que não é bom em nenhuma outra coisa. Paulinho Roberto levantou-se com o violão e disse: “Vamos gente, vamos deixar o cara ESTUDAR” e arrastou todas as letras da palavra, enquanto entortava os olhos e fingia afetação, em raro momento de canastrice exacerbada. Deu socos com força no ombro direito de Jorge e disse: “Manda ver amigo, tira um DEZ aí pra gente!” e foram-se. Jorge ainda escutou os risinhos de uma das meninas e o outro cara falando: “Ele vai é bater punheta. Pode apostar que vai”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou, sem olhar para quantas pessoas estavam na pensão. Sentou-se à escrivaninha para estudar. Antes que pudesse começar, Matheus apareceu, amistoso como sempre. Ele era uma pessoa que entendia muito de comportamento social, não que tivesse pesquisado sobre o assunto, apenas tinha esta aptidão, e não precisava do mínimo esforço para manter uma conversa animada por horas. Também seria fácil para ele mostrar que a conversa deveria terminar, por movimentos sutis que passavam a mensagem por trás da consciência da pessoa. Então, ela sairia pensando, nossa, como é gente boa o Matheus. E quando estivesse conversando com outros, e o Matheus virasse assunto, ele diria “O Matheus? Pô, muito gente boa aquele cara!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez ele fosse o único a ter o traquejo necessário para ver além da carranca de Jorge, para estabelecer um contato e ter acesso a nuances da personalidade do amigo que ninguém havia conhecido. Nem mesmo a mãe ou o pai dele. Especialmente o pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou talvez não. Talvez Matheus fosse algo completamente diferente disso tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que Matheus entrou com a mochila no quarto que dividia com Jorge. Eram três quartos, com duas pessoas em cada. “Estudando já? Tá foda né amigo, eu também vou ter que começar, a semana de provas tá aí. Mas antes, eu vou tomar um banho.” Jorge não respondeu, e foi colocando os livros na mesa, bem como suas anotações de aula, o atalho do aluno assíduo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cerca de vinte minutos haviam se passado quando o telefone tocou no corredor. Uma, duas, três vezes, e ninguém para atender. Jorge se levantou e foi atender, mais para fazer cessar o barulho do que para saber quem era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a mãe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi Jorge, tudo bem, meu filho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi mãe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi mãe? Por que você não me liga mais? Não quer mais saber de mim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você tem que ligar mais aqui, meu filho. Parece que não quer nem saber se a gente tá viva ou morta”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E pro seu pai, tem ligado?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“... não, mãe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro que não né? Se tivesse, saberia que ele está no hospital há três dias!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No hospital?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas... no hospital?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É, quer dizer que ele está doente!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei mãe, mas qual o problema?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Até parece que você não sabe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O fígado?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lógico!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você precisa vir aqui, meu filho. Ele é seu pai, perguntou de você hoje, é melhor você vir. Você tem que visitar ele. Aproveita que é sexta-feira, pega um ônibus, não vai levar nem uma hora pra chegar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei não, eu tenho que estudar, já tem prova segunda-feira, mãe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada disso, você vai vir visitar o merda do seu pai, entendeu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu vou estudar. Se der, eu apareço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Apareça!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E desligaram. Mas ele não apareceria, pelo menos não imediatamente, não faria a vontade de sua mãe e nem de seu pai, se é que o velho realmente queria vê-lo. Se é que ele tivesse algo especial para dizer, algo que não fosse a ladainha de sempre, os confusos conselhos de uma mente deteriorada, as insinuações de que o filho deveria seguir seus caminhos tortos do álcool e mulheres fáceis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tinha provas e precisava estudar, mas seus pais, ao invés de incentivá-lo, ficavam choramingando em camas de hospital e interrompendo com ligações indesejadas de revoltante chantagem emocional. Depois de impregnado por estes pensamentos, Jorge não conseguiu mais convergir a atenção para o que quer que fosse, muito menos para os estudos, que tanto raciocínio demandavam. Deixou o livro aberto na mesma página, para retomar às cinco da manhã no sábado. Sentou-se à cama e, para a própria surpresa, estava consternado. Era um sentimento muito inapropriado na opinião dele e, se não inédito, era algo que há tempos não sentia, um súbito incômodo numa indesejável intensidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior de tudo era que não conseguia identificar os pensamentos. Imagens carregadas passavam por sua mente como carros de corrida, borrões de uma sensação opressiva, que lhe dominava. Malditos aqueles que quebram o equilíbrio trazido pelo comodismo, malditos os que mostram que no mundo existem mais coisas além daquelas que garantem o nosso conforto. Fugir não adianta, pois a fuga nunca é completa, uma vez conhecidas, essas coisas nunca vão embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim eram os nós que Jorge mantinha no seio de sua família. Esses foram os motivos pelos quais Jorge já havia desistido há anos de ser uma pessoa normal e completa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matheus voltou, de banho tomado, já preparado para dormir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porra meu, o Otávio é um sacana, falou que ia me chamar pra balada hoje, mas me deu o cano. Eu acho que vou dormir mesmo, aí amanhã eu ligo pra... aconteceu alguma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu ouvi o telefone do chuveiro, era o Otávio?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, Matheus, era minha mãe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sua mãe? Fazia tempo que ela não ligava hein, como ela está?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ligou pra avisar que meu pai tá no hospital. Tá internado por causa do fígado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hmmm, bem, e ela quer que você vá até lá e você não quer ir, certo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas palavras deixaram Jorge surpreso, marcadamente insatisfeito por terem mostrado que ele havia se tornado alguém tão previsível aos olhos de outra pessoa. Por outro lado, uma pequena satisfação gerava um conflito dentro de si, um inegável conforto oriundo da constatação de que ele era observado, o alvo da preocupação de um bom amigo. Como era gente boa o Matheus, conseguia tocar até as almas mais imaturas e ariscas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabe, não é que eu não quero ir Matheus... é que, é que...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dá uma pensada nisso aí, amigo. Eu vou pegar cerveja pra gente, aí você me fala.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que Matheus saiu do quarto, a cabeça de Jorge tombou ao apoio das mãos. Não poderia chorar, mas, caramba, como tinha vontade. Por tantos e tantos anos ele havia sido o coveiro das próprias emoções, ficava totalmente perdido quando surgia a oportunidade de desenterrar seus problemas apodrecidos. Ergueu-se, era tempo de fazer o que sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matheus voltou com duas garrafas e entregou uma a Jorge. Eles começaram a beber e estava gelada e refrescante, algo para lembrar que aquela era uma noite de sexta-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então cara, por que você não vai visitar seu pai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não é nada demais, eu preciso estudar. É só isso. As provas estão aí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É só isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bem, se quiser conversar, tamos aí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, é só isso mesmo. Agradeço a preocupação, Matheus.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E continuaram bebendo, em meio a conversas que transitavam entre banalidades. Matheus preferiu não insistir, embora soubesse que seria bem melhor para Jorge se ele se abrisse e discutisse os assuntos que o incomodavam. Afinal, era o que faria bem a qualquer ser humano normal neste tipo de situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou tarde, resolveram ir dormir. Na manhã seguinte, Jorge acordou extremamente perturbado, realmente assustado pela primeira vez na vida. Ficou sentado por alguns minutos, esperando que a terrível sensação passasse, que seu coração retornasse ao ritmo quase cadavérico com que normalmente iniciava as manhãs, e que parasse de suar. Ele sentia como se não soubesse mais quem ele era. Nunca soube, mas apenas começou a pensar nisto naquele momento. O que havia acontecido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou para a cama de Matheus, ele ainda dormia. Um sono tranqüilo, uma imagem que lhe trazia uma dúvida terrível, a impressão de estar virando viado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez não se transformando. Talvez apenas se descobrindo, se deparando com uma surpresa muito desagradável sobre si mesmo. Mas ainda assim, era uma idéia difícil de aceitar, pois, pondo de lado qualquer preconceito, ele não se lembrava de ter sentido nada parecido até aquele ponto de sua vida. É verdade que raramente prestava atenção a sentimentos e sensações, e que permitia que seus pensamentos afogassem tudo em falsa racionalidade, mas lhe parecia evidente que algo tão fundamental já devesse ter se manifestado de um modo mais contundente aos próprios olhos. Talvez este tipo de raciocínio apenas valesse para as pessoas normais. Talvez ele tivesse alguma deficiência emocional, algum desajuste sério que fazia com não pudesse ter a menor noção de quem ele realmente era e do que gostava na verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também, nunca haviam perguntado. Nem ele mesmo havia, pois estava sempre ocupado não perguntando nada sobre si ou sobre os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motivo de tanto desconcerto, contudo, não era um desejo homossexual manifesto. Olhava para a outra cama, via o amigo deitado, embora ele agora se sentisse muito desconfortável em chamá-lo de amigo, mais ainda de companheiro de quarto, e sentia afeição por ele, apenas isto. Afeição, como a que se sente por um irmão, ou então pelo pai. Não, não pelo pai. Mas era só isso, nada de viadagem. E repetiu isso a si mesmo várias vezes. Nada de viadagem. Mas ainda assim, as imagens do sonho estavam vivas e era um sonho muito gay com Matheus. Mal teria coragem para encará-lo dali em diante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E procurou não fazer isto durante todo o sábado. Esforçou-se para evitar o amigo e, nisto, acabou se abstendo de todas as outras atividades que não fossem ficar sentado estudando. Deixou de tomar banho, deixou de comer, deixou de se alimentar. Conseguiu, entretanto estudar, num esforço enorme para destruir todo o mundo à sua volta pelo estreitamento, excepcionalmente maior, da própria percepção. Em se tratando de Jorge, aquilo era muito, era a última palavra em negação. Mal poderia ouvir o que se passava ao seu redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia um monge sentado com as costas eretas por horas, repetindo em sua mente seus mantras científicos, os dogmas que ele tentava sacralizar na vã esperança de afastar as suspeitas que tinha sobre si mesmo. Que tarefa difícil. Pelo menos ele iria bem na prova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três horas após o pôr do sol, o telefone tocou, e tocou de um modo insistente, pois quem estava ligando não teve o bom senso de desistir de importunar Jorge, e os outros inúteis da pensão haviam saído para fazer algo heterossexual. Não teve jeito, ele teve que saltar de seu pequeno bote salva-vidas para encarar a própria fome e a sensação de que estava imundo. Ao atender o telefone, arrumou outra distração; a cobrança por parte da mãe, que insistia na causa perdida que era Jorge, seu maldito filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então você não vem mesmo hein Jorge? QUAL O PROBLEMA?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Jorge, como sempre sem entender, começou a se sentir péssimo, minúsculo, inferior, um fracasso, havia um peso sobre si que o impedia de falar. Sua atenção era constrangida pelo próprio corpo, a tensão na mandíbula, a dor da coluna, vergada sob a cabeça que pesava como chumbo, as costelas que se retraíam e os músculos que perdiam o tônus. Ele se sentiu a criatura mais patética do mundo, e esse foi o primeiro julgamento sério que fez acerca de si mesmo, ultrapassando todas as próprias expectativas, que eram bem pessimistas. Quem ele era? O que ele era? Pra que ele servia? Quem gostava dele? Pensou em perguntar à mãe, mas não o fez, pois nada disso, ele acreditava, seria levado a sério por ela, que tinha outras coisas com que se preocupar, como exercer a autoridade sobre ele, exigindo que viajasse até ela sob o pretexto de encontrar seu pai, aquele homem estúpido de quem ninguém, absolutamente ninguém gostava. Uma abominação, era isso que a coisa toda era. Talvez ele fosse mesmo alguém abominável, talvez devesse mostrar isso ao mundo, expor um pouco suas trevas. Talvez não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não vai vir, seu bosta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E desligou. Tirou do gancho, porque sabia que ela ligaria de volta e deu um soco na parede com a mais pura, vermelha e ardida raiva. Foi bom. Quando Matheus chegou, o nervosismo de Jorge dobrou, e ele não sabia o que fazer. Impossível esconder sua inquietação, ele geralmente fazia isto posando como taciturno, pois as pessoas sempre interpretavam aquilo errado, como se ele apenas fosse uma pessoa séria, pensativa, calma. Como estavam enganadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai cara, agora vamos encher a cara.” Disse Matheus ao ver como o amigo estava nervoso. “Eu comprei cerveja, vinho, e tem um pouco de vodca também. Vamo lá que você tá precisando. Eu também tô, porque a vida tá foda. É ou não é?” e deu uma piscada malandra e amiga. Jorge estremeceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matheus, o cara que até aquele dia mais tinha conquistado a confiança e a afeição de Jorge, foi apanhar as bebidas. No começo, a situação o havia deixado muito tenso, mas aos poucos foi relaxando. Talvez não fosse tão ruim assim. Quem o poderia recriminar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amigo voltou com um drinque já pronto para Jorge, ele era bom nessas coisas de álcool. Estava forte, era como se vapores fossem escapar de seus poros. Uma pontada quente, um impacto que zuniu e reverberou por sua cabeça e a sensação de alívio e relaxamento. Jorge deixou-se cair na cadeira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou na cama, domingo de manhã e ficou um tempo remoendo as coisas. Pouco tempo foi necessário para que ele pudesse constatar que sua madrugada havia sido extremamente gay e que seus sonhos haviam ficado mais obscenos e cheios de detalhes. Onde aquilo ia parar? Ficou mais confuso e nervoso, aquilo tudo era um pesadelo que substituía sua vida, que já não era nenhum sonho. Daquela vez, havia sonhado que Matheus efetivamente lhe comia a bunda! Essa não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou na cama olhando para o teto, a cabeça latejando, os olhos secos ardendo na implacável vigilância de absolutamente nada e os braços pesados na cama. Jorge era todo náusea e descontentamento. Depois de um tempo, resolveu olhar as horas, apenas para confirmar a suspeita de que era tarde. Tarde demais para voltar atrás? Essa resposta o relógio jamais poderia dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ela viria, e muito mais cedo do que Jorge poderia ter cogitado. No final, a surpresa não foi capaz de pôr fim a sua desventura, mas ele não pôde deixar de se sentir aliviado pelo rumo que as coisas tomaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nem ao menos precisou sair da cama para que sua vida se tornasse ainda mais surreal. Tudo que ele precisou fazer foi ficar deitado, tentando criar coragem para voltar a estudar, pois uma série de acontecimentos havia irrompido pela manhã de domingo e a bomba viria parar em suas mãos em poucos minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo começou com um barulho de fúria, de impaciência, de alguém que se aproximava para acertar as contas sobre algo que o estava irritando profundamente. Era o som da cólera, o som das situações em que as palavras se tornam coadjuvantes de gestos agressivos e possíveis pancadas. A porta da casa se abriu com violência e Jorge ouviu os passos que, cada vez mais altos, se endereçavam indubitavelmente à sua pessoa. A porta do quarto se abriu de modo igualmente brusco, num paralelismo que fascinou, num nível muito baixo e quase imperceptível, é verdade, a mente matemática de Jorge. Olhou para a figura indignada parada à porta e não a reconheceu. Era um homem, e não havia nada de particularmente estranho nele, tirando a raiva. Jorge notou que ele segurava um telefone celular cujo modelo parecia muito o de Matheus. Logo depois, constatou que era exatamente o aparelho do colega de quarto, ausente naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem se aproximou pisando firme e Jorge fez um pequeno esforço com o pescoço para encará-lo direito. Levantou as sobrancelhas em sinal de indagação, tudo bem que várias pessoas moravam na pensão e que por isso havia sempre convidados estranhos circulando por ali, mas aquilo era estranho demais. E o que o homem poderia querer com ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou para descobrir. O cara olhou bem para seu rosto. Afastou rapidamente a cortina para observar com mais luminosidade, e sentenciou seguro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É, é você mesmo. É você que é o Jorge!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O quê, não adianta se fazer de besta! Eu já sei de tudo tá entendendo? Você acha que eu sou trouxa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“... hein?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha aqui, seu viado cínico!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isto, o impertinente e misterioso homem esticou o braço e manteve o celular a alguns centímetros dos olhos de Jorge. Uma foto estava sendo exibida no painel e Jorge estava lá. De bruços, e o pior, sendo enrabado. Presumivelmente, por Matheus, que quis registrar o momento. O rosto de Jorge, de lado apoiado no travesseiro, os olhos quase fechados. Quase. Bem, aquilo explicava a terrível dor que sentia no rabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um choque destes é tão grande que é dificílimo de assimilar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como era gente boa o Matheus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o homem ia passando as fotos, uma mais ultrajante do que a outra. E já aos berros:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seu pervertido! Fique longe do Matheus, ele é meu!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...!!!!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conflito na cabeça de Jorge era inevitável, estava mais seguro de si agora que percebia que não era viado. Só que sua revolta crescia, pois havia sido extremamente sacaneado por quem sentia enorme consideração e ainda tinha que agüentar o ciúme daquela bicha louca. Ques filhas da puta esses dois, pensou Jorge, QUES FILHA DA PUTA!:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“SEU FILHA DA PUTA!” gritou Jorge, como se estivesse sendo parido naquele momento e recebesse um tapa muito forte na bunda. “SEU FILHA DA PUTA DO CARALHO! CALA ESSA BOCA, BICHA DE MERDA! EU NEM SABIA DESSA PUTARIA TODA!” E levantou-se com rispidez, com todos os músculos do corpo preparados para um massacre. “QUEM É VOCÊ, SEU MERDA?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sou o Otávio, namorado do Matheus!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“AH É MESMO? É MESMO? POIS ESSE F I L H O D E U M A P U T A DO SEU NAMORADO ME EMBEBEDOU, DEVE TER ME DROGADO TAMBÉM, PORQUE EU NEM SABIA! NEM VIADO EU SOU!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Otávio ficou sem palavras. Não era para menos, ele que estava resoluto em surpreender acabou sendo surpreendido com uma pancadaria verbal, e pelos modos de Jorge, ela poderia se tornar real. Então a reversão da surpresa foi sucedida por um medo crescente e, como costuma acontecer nestas ocasiões, Otávio procurou se acalmar, em clara manifestação de instinto de sobrevivência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me desculpe... eu, eu, não deveria ter entrado aqui desse jeito,eu”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frase foi interrompida por um soco no estômago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge nunca havia tido destaque nenhum, sempre foi visto como um zero à esquerda, e nem ele próprio se importava com a idéia. Mas aquela manhã foi histórica. Otávio dobrou-se no chão e tentou puxar o ar de volta, mas não conseguiu, não poderia nem ao menos reclamar da dor. Jorge estava completamente furioso, caminhou por cima dele, pisando com mais força do que precisaria para se apoiar, pegou a carteira e saiu batendo a porta. Em frente à pensão, formando mais um obstáculo, a rodinha de violão, empenhando-se em dar nos nervos. Lá estava Paulinho Roberto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Eu prefiro SEEer...&lt;br /&gt;Essa metamorfose ambulante!&lt;br /&gt;Do que ter aquela velha opinião formada sobre TUUUUUDOAH&lt;br /&gt;Do que ter aquela velha.... &lt;/em&gt;O QUÊ? NÃO!&lt;em&gt;”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BLÉIN! CRACK! TÓIN! PLEC! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge teve que interromper a música para quebrar o violão, ou talvez ele tivesse arrebentado o violão para que fosse interrompida a canção, àquela altura ele já não tinha mais certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E afirmou, categórica e colericamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“EU DETESTO ESSA MÚSICA, SEU MERDA!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O murmurinho das meninas foi esse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ai gente, credo, que horror, nossa... ai, ele é louco, vamos sair daqui gente, ai.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todas saíram na hora, menos a Marcinha, que ficou olhando Jorge, ali, a poucos metros dela, primitivo, bestial, de pijama e quase babando. Ela estava visivelmente excitada, mas logo foi acompanhar as colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge saiu correndo e tinha destino certo; a rodoviária. Ia pegar o ônibus para poder visitar o pai no hospital, e aproveitaria a oportunidade para mandar o velho tomar no cu e a mãe, pra puta que pariu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele mandou, com certeza mandou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3675708-7253476418109564286?l=monte-de-palavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/7253476418109564286/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3675708&amp;postID=7253476418109564286&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/7253476418109564286'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/7253476418109564286'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/2007/11/o-dia-em-que-jorge-ficou-bravo-e.html' title=''/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708.post-7142542277478133180</id><published>2007-10-29T18:06:00.000-07:00</published><updated>2010-01-11T06:14:02.092-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;SÁBADO DE MANHÃ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Por alguns segundos, o mundo de Ana foi só escuridão, mas uma escuridão que era o bloqueio de todos os sentidos, a ausência da carne, algo capaz de fazer crer que já não se é mais um ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Ana não estava perdida no nada, era um estado onírico, que dividia o espaço com um crescente fiapo de consciência. Então, Ana pôde experimentar emoções em suas formas mais puras, sem que o mal-estar físico pudesse desviar a atenção. Só que eram emoções negativas, que fariam o estômago dar voltas na barriga, se ela pudesse ao menos sentir que tinha estômago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada enxergava, nada escutava, apenas angústia, ansiedade e medo, muito medo, a sensação de estar indefesa no meio das trevas, o medo de algo que ela já conhecia, mas não de uma maneira consciente, algo que parecia ter acabado de acontecer, mas que reverberava como rédeas emocionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este estranho estado foi passando aos poucos. Era um estado que ficaria pairando, tênue, sobre a mente de Ana enquanto ela estivesse entre o sono e a vigília, mas que logo seria esquecido. Não seria eliminado, mas ficaria nos bastidores de seus olhos, como as experiências que condicionam o viver. O estranho estado recuou diante da consciência que crescia e espantava os bichos noturnos da cabeça de Ana. Primeiro ela percebeu algo estranho, uma limitação pesada a seu ser e, logo depois, constatou que era apenas seu corpo, mais cansado que o normal. Estranhou que isto tenha lhe chamado a atenção só naquele momento, apesar de tantos e tantos despertares passados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, começou a experimentar sensações que logo observou serem de uma manhã ensolarada. A claridade entrou por seus olhos e iluminou sua alma sob a forma de um borrão, que logo assumiu formas tão nítidas, que Ana pôde ver a poeira suspensa no ar, dourada como minúsculos sóis. Quando prestou atenção no corpo, pareceu mais leve e notou que o medo havia desaparecido, dando lugar a uma bela e limpa serenidade. O vento estava fresco e fazia com o que o sol pudesse ser chamado de amigo. O cheiro era familiar, era cheiro de flores, e gramas. Os sons, obviamente, eram de pássaros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas onde ela estava afinal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No banco da praça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que noite”, ela pensou enquanto olhava ao seu redor “que noite”. Dessa vez ela deveria ter passado dos limites, sem dúvida. Acordar num banco de praça sem se lembrar do porquê era um péssimo sinal, um infeliz indício de que talvez fosse melhor que ela nem descobrisse o que havia aprontado. Sentou-se e olhou o movimento daquela manhã. Parecia ser sábado, o melhor dia da semana. Estava escrito no rosto das pessoas. Mas algo parecia estar fora do lugar e Ana tentava entender o que era. Talvez, passar a noite fora de casa, no banco da praça pela primeira vez na vida, mudasse a percepção da gente sobre as coisas, foi o que ela pensou. Talvez a sensação de inadequação, de descobrir um território novo em nossa cabeça, mesmo que a praça seja a mesma de sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a praça não era a mesma de sempre, ela estava mais charmosa. As pessoas também estavam um pouco diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajeitou a bolsa no ombro, que felizmente ainda estava lá, pôs-se de pé e caminhou, com uma calma que era novidade para ela. Manhã de sábado e nada com que se preocupar. Andou pela calçada e observou as vitrines. Parou diante de uma loja de relógios e ficou se olhando no espelho para logo constatar que estava linda. Estava tão fresca, colorida e macia, seus olhos azuis, o cabelo castanho levemente ondulado e caindo nos ombros. Não fazia idéia de que dormir na rua pudesse ser um tratamento de beleza tão bom. Suas roupas estavam limpas, eram o reflexo de suas idéias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuou caminhando, e tudo parecia essencialmente bom. As pernas se moviam e os pés atingiam o chão de um jeito hipnótico, e ela se deixou automatizar neste transe agradável, numa linha contínua de satisfação. Não se deu conta, mas estava respirando à toda capacidade, e todo aquele oxigênio enchia seu rosto de vida, fazendo com que seus olhos zunissem e captassem com máxima atenção cada quadro do esplendor da vida. Quando deu por si, havia chegado à frente do parquinho da cidade, que reluzia. Ela não sabia que tinham reformado. Fazia muito tempo que não passeava por ali, era verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensou, o mais natural para ela foi entrar para ver as crianças brincarem. E assim ela fez, indo sentar-se sob uma árvore perto de crianças que corriam e se divertiam, como deve ser. Elas pareciam as crianças do tempo dela, afinal criança sempre vai ser criança. Observou as mamães, que vigiavam e falavam feito idiotas com os filhos, estes mais iluminados ainda por se sentirem cuidados. A imagem, tão corriqueira, de uma mãe que empurrava a filha no balanço lhe pareceu a melhor poesia do mundo e seus olhos marejaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se sentiu preparada para tudo. Sentiu-se pronta para guiar qualquer um em direção à paz, sentiu-se apta a aplacar o sofrimento de quem quer que precisasse, e tudo que tinha que fazer era estender a mão com uma flor e lançar um olhar doce cheio de significado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando ela escutou algo que contrastava com tudo naquela manhã. Uma das crianças começou a chorar e era uma que ela ainda não tinha notado. Estava solitária, sentada no canto do parquinho de areia e era um menino, um menino triste. Ana voltou-se para ele e pôs-se a observar por alguns instantes, as pernas cruzadas e o olhar analítico, cheio de calor e humanidade. Esperou e o choro não foi embora. Ela esperava que alguém aparecesse para acudi-lo, mas as mães estavam todas ocupadas e a do menino estava ausente. Ela hesitou por alguns momentos. Olhou fixamente para aquele choro e sentiu algo trincar dentro de si, por onde vazou um pouco de insegurança. Estava confusa, mas respirou fundo e convenceu a si mesma de que estava realmente pronta. Ergueu-se e caminhou na direção do menino, estranhando por ninguém nem ao menos olhar o que acontecia. Quando finalmente sentou ao lado dele, sentiu felicidade, um vapor lhe enrubesceu e ela quase se afogou em compaixão. Sentia-se feliz pelo menino, por ele ter finalmente conseguido a rara oportunidade de ser notado por alguém, além de uma auto-satisfação egoística que se mostrava cristalina, mas que não fazia com que se sentisse culpada. Nem um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino ainda chorava. Ela inclinou o corpo para frente e o encarou. Sorriu como um anjo misericordioso e com olhos azuis que prometiam uma vida cheia de abraços. O menino reagiu, parando de chorar de tristeza, mas aproveitando a súbita alegria para derramar as últimas lágrimas que faltavam, disfarçadamente. A criança devia ter pouco mais de três anos. Três anos não é idade para ser solitário, se é que existe uma idade para isso. Ela lhe afagou o rosto, secando as lágrimas, e ele se acalmou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana pegou um copo de plástico que estava ao lado e retomou uma atividade que adorava quando criança, que era fazer montinhos de areia com o copo. Achou que seria muito legal compartilhar isso com o menino. Sim, é claro, poderia não ser grande coisa, mas era bem melhor que ficar chorando no canto do parque. Então ela fez, e o primeiro montinho não ficou perfeito, quebrou um pouco na parte de cima. O menino ficou admirado com a lisura da superfície, ficou com vontade de pôr a mão. Pôs e tudo caiu, surpreendendo-o. Estava absorto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela repetiu, e o segundo ficou mais torto ainda, mas a criança gostou do mesmo jeito. Deu um tapinha e a areia se espalhou, o que provocou uma risada do menino e palmas de aprovação. Que brincadeira havia descoberto. Os montes de areia se seguiram e a empolgação cresceu, o menino já estava de pé, saltitante. Mas os montes ficavam deformados, Ana não conseguia entender. Deveria ser muito mais fácil fazer um montinho perfeito. Não era só colocar a areia, virar o copo no chão e depois tirar? O que ela estava esquecendo? O menino pulava e gargalhava e, quando Ana tirava o copo, ele logo pisava ou chutava longe a areia, ficando em êxtase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ela se levantou e segurou-lhe a mão. Levou-o até o balanço, sentia que precisava empurrá-lo no balanço. Ele concordou sem discutir e, em poucos segundos, estava alçando vôos inacreditáveis de graça infantil, em gargalhadas pendulares que ecoavam pelo bosque. E Ana empurrava com a agradável sensação de reviver o passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um tempo os dois saíram pelo parque, ela levando-lhe pela mão, como se fosse uma irmã mais velha ou então... isso mesmo, uma mãe, e o pensamento a surpreendeu, pois ela enfim começava a acreditar que poderia ser uma boa mãe. Ela o encarou e perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde está a sua mamãe?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino ergueu os ombros e Ana entendeu que ele não sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o papai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criança pareceu confusa, não sabia o que dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você sabe, o papai, marido da sua mamãe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana olhou em volta enquanto saíam do parque; viu muita alegria, mas nenhum interesse nela ou no garoto. Teve o cuidado de sair lentamente, à vista de todos, e ainda assim ninguém veio reivindicar a criança O menino só tinha olhos para Ana.. Então ela o levou para passear, o menino merecia um pouco de atenção. Depois ela pensaria no que fazer com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana e o menino caminhavam pela calçada, ele num andar divertido, que era uma dança de criança, e ela sorrindo, por entre a humanidade ruidosa. Os carros passavam e, em algum lugar, as batidas de uma construção. Então, ela viu um senhor que vendia algodão doce na esquina e se lembrou dele. Notou também que a criança olhava para o carrinho e para as pequenas nuvens que ali estavam com um desejo manifesto. O primeiro impulso de Ana foi comprar o doce para ele, mas ela se segurou para pensar. Sentia-se responsável por ele e se lembrou das vezes em que lhe haviam negado doces. Na maioria das vezes diziam que ela não podia comer porcaria, que dava cárie e dor de barriga. Mas e daí? Era só comer pouco e escovar os dentes depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana aproximou-se e pediu o algodão doce, branco. O homem entregou o doce, acenou com a cabeça levemente e saiu empurrando o carrinho. Era uma cena muito familiar para ela, como tudo que acontecia ali, no velho centro. O menino ficou muito feliz e devorou o algodão, com todo o fascínio que o ineditismo lhe trazia, maravilhado com o modo como o doce ia se desmanchando na boca e virando açúcar. Observou bem as partes mordidas, cristalizadas e brilhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prosseguiram lado a lado, até chegarem à praça. O menino, terminado o doce, não via sentido algum em se livrar da vareta que o sustentava. Em suas mãos, aquilo era ora espada, ora revólver e ele corria pela grama lutando contra inimigos que, mesmo imaginários, estavam por toda a parte. Mas, no final, todos tombavam e ele saía ileso. Nisto, Ana sentiu um leve frescor, trazido por gotículas de água suspensas no ar pela pressão da fonte. Eram pequenos diamantes que faziam o sol brilhar em cores variadas e, em grupo, serviam como tela para a projeção de um belo arco-íris. Ela andou até à fonte, levando o menino pela mão, e ele empunhava a vareta atento, muito mais do que pronto para a próxima aventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estavam bem próximos, Ana abriu a bolsa e procurou pela escova e pasta de dentes que sempre carregava. Era muito precavida. Não poderia deixar que todo aquele açúcar corroesse os dentes da criança, e a água da fonte serviria, não era suja e um pouco já bastaria. Lá estavam, relativamente novas, a escova e a pasta. Ana preparou a escova e abaixou-se para falar com o garoto com seriedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hora de escovar os dentes, vamos lá, é assim que se faz, abra a boca.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele abriu e ela escovou alguns dentes da fileira da esquerda, da parte de baixo. Passou para a de cima, mudou para os dentes da frente e assim por diante. “Tem que limpar tudinho.”, ela disse. E ele assentiu, com a boca cheia de espuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora, encha a boca de água, para lavar”, e mostrou como deveria ser feito, bochechando um pouco da água que saía do chafariz. Ele fez igual e cuspiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Muito bem. Muito bem.” Estava orgulhosa. Era verão, era sábado de manhã e os dois estavam com os dentes limpos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuaram com o passeio pela praça, até que Ana viu a mãe que guiava a filha pelos perigos da faixa de pedestres, e decidiu retornar ao parquinho das crianças. Imaginou que, talvez, alguém poderia estar procurando pelo garotinho. Suspirou e seguiu seu caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto caminhavam, ela sentiu algo mudar. Era difícil de identificar, uma sensação esquisita. Como se ela pudesse perceber a rotação da Terra no envólucro dos ventos, e pudesse ouvir massas de ar a quilômetros de distância. E, longe, muito longe, sons que pareciam ser os de milhares de inimigos chegando a cavalo. A natureza conversava diretamente com ela com sua linguagem característica, em que os signos são folhas que caem, pássaros que abandonam o ninho e nuvens que encobrem o sol. A manhã de sábado tornava-se sisuda, e preparava Ana para o que viria em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram pelo parque, apenas para constatar que estava vazio. Quando caminhavam em frente ao bosque, o menino se desvencilhou e correu mato adentro. Estranhamente rápido, ela logo o perdeu de vista, entrando no bosque para procurá-lo. Quanto mais ela entrava, mais fechado se tornava, e ela simplesmente não se lembrava daquilo como parte do centro da cidade. Seguiu em frente, olhando para todos os lados em busca da criança, suando de verdade pela primeira vez no dia, as árvores se amontoando, ela sentindo o peso de cada uma delas, o sol sendo bloqueado por manchas negras e a escuridão se aprofundando. Ana retornava à escuridão, em busca do menino. Onde foi parar a criança? Será que aquela gargalhada jamais voltaria a ser ouvida? Será que o ar nunca mais sofreria golpes de vareta? Onde foi parar a criança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansou. A respiração se tornou difícil, os pensamentos embaralhados e achou que seria muito difícil continuar. Quando estava prestes a desistir, viu algo ali no meio do mato que responderia suas perguntas. Aproximou-se e estava tudo embaçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ansiedade cresceu, o medo tomou conta, era como se estivesse diante de um perigo real, uma violência presente. Como se calculasse a fuga, mas estivesse já presa em imensa teia. Lembranças horríveis vieram à tona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, ela ainda não havia visto o suficiente do que estava li no chão, mas de certo modo, já sabia o que era, conseguia se lembrar e ficou furiosa. Atacou-a um sentimento muito mais intenso do que a decepção que se sente ao acordar, quando se é enganado por um sonho bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ela via ali no chão, já com riqueza de detalhes, era a antítese da imagem que havia visto refletida no espelho da relojoaria. Ela estava morta ali no chão, em estado deplorável e lembrava-se do que havia lhe acontecido, cheia de horror. Os olhos abertos, a boca escancarada, como se tentasse puxar de volta o sopro da vida. Sopro este que observava o cadáver, em estado de total perplexidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pôde fazer outra coisa que não chorar. Não teve coragem de tocar no próprio corpo. Que injustiça! Que injustiça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu o ranger de rodinhas e virou a cabeça na direção de uma árvore por trás da qual aparecia lentamente um algodão doce, e depois outros, até que o velho vendedor surgiu, segurando o carrinho. Ele parou e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aninha, você morreu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei. Eu lembro. Foi aquele homem horrível. Mas o que é tudo isso, o que eu tô fazendo aqui?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou te explicar. Você foi morta de maneira brutal, violentada e espancada. Sua alma ficou carimbada com terror e revolta, entendeu, e desse jeito ia ser impossível você ficar em paz. Aí você acordou no banco da praça, só que vinte anos no passado, para encontrar seu assassino poucos momentos depois dele ter sido abandonado pela mãe no parquinho da cidade. Você estranhou a praça, porque era a praça de vinte anos atrás. O parquinho que você viu não tinha sido reformado, ele tinha sido é inaugurado há pouco tempo. Aquela cena que te emocionou, da mulher empurrando a filha no balanço era você quando menina com sua mãe. Você também se viu depois, atravessando a rua com ela, mas nem notou. Eu morri faz tempo. Já era velho quando sua mãe vinha comprar algodão doce pra você. Enfim, você veio conhecer o assassino quando criança. Talvez, se na manhã de sábado em que ele foi abandonado, ele tivesse sido salvo por um anjo de coração humano, olhos azuis, cabelos castanhos e sorriso amoroso, talvez a história tivesse sido diferente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana já havia se erguido, quando ouviu as palavras do velho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora volte. Volte.” E apontava para a direção de onde ela havia chegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela voltou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora, há vinte anos, ainda era uma bela manhã de sábado. No entanto, tudo estava estático, não parecia mais haver vida em lugar algum. Ela entrou no parque e lá estava o menino sentado no canto do parquinho de areia, exatamente como antes. Ele estava parado, olhando para ela. Ana se aproximou e sentou a seu lado, para analisá-lo nos olhos. Talvez não devesse sentir raiva dele, ela pensou. Seria certo entender que aquela ali era uma pessoa completamente diferente do monstro do futuro, alguém inocente. Mas foi impossível para ela olhar nos olhos do menino sem se lembrar dos olhos do estuprador. Era ele. Era ele mesmo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E deu um tapa com muita força na cabeça do moleque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele começou a chorar, assustado, pego desprevenido pela agressão, vinda de onde ele apenas havia recebido carinho. Com a mão suspensa no ar para descer outra pancada, Ana olhou bem para ele e captou cada quadro de angústia e de sofrimento legítimo que amarrava aquela criança. Pousou a mão no ombro do garoto e o trouxe para si, afagando sua cabeça. Ele soluçava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, se acalmou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, Ana pegou o copo que ainda estava ali do lado e o menino se levantou. Ela encheu de areia e virou no chão. Tirou o copo vagarosamente e viu que o monte de areia estava totalmente simétrico, absolutamente perfeito. Ela se levantou e os dois ficaram se olhando em silêncio. Na rua, o caminhão do gás passava, tocando sua música, apenas três notas duradouras que se alternavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana olhou para a forma perfeita de areia que estava no chão e pensou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, eu estou preparada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino olhou para ela e acenou com a cabeça. Ela retribuiu o gesto, concordando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ele deu passos velozes na direção do monte de areia e, de repente, tudo correu em câmera lenta para ela. Veio o chute que fez a areia subir e ela pôde ver cada um dos grãos, brilhando como pequeninos sóis, ficando maiores e mais reluzentes, envolvendo-a. E a música do caminhão de gás crescia, mais alta do que nunca, enquanto ela era suspensa no ar e perdia todos os limites da matéria. Dali em diante, seria sábado de manhã sempre que ela quisesse.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3675708-7142542277478133180?l=monte-de-palavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/7142542277478133180/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3675708&amp;postID=7142542277478133180&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/7142542277478133180'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/7142542277478133180'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/2007/10/sbado-de-manh-por-alguns-segundos-o.html' title=''/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708.post-9039934863991014454</id><published>2007-09-17T19:21:00.000-07:00</published><updated>2010-01-11T06:15:45.066-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;O DOMINGO&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:large;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A manhã de domingo havia acabado de começar, e tudo levava a crer que o dia seria belo, com o ar dourado e as árvores balançando ao vento, num verde quase que fosforescente. Armando acordou muito contente por ser domingo e por poder ter tempo livre o bastante para pensar no que fazer, até que chegasse a segunda feira sem que ele houvesse feito nada. Isto não o incomodava, pois era um sujeito acomodado e preferia ficar em casa nos fins de semana, apenas usufruindo do que as instalações lhe ofereciam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcia, sua esposa, não lhe cobrava nenhum programa diferente. Ela tinha uma agenda própria, pessoas para visitar, coisas para comprar e amigas com quem conversar. Quando Armando acordou, percebeu que Lúcia já havia saído. Deveria ser umas dez horas da manhã. Armando levantou-se e foi ao banheiro para sintonizar o espírito com as energias do universo enquanto dava uma cagada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O aparelho de som tocava músicas New Age, que misturavam sons de instrumentos orientais com uns arranjos eletrônicos, algo que poderia ser usado para meditar, fazer ioga ou tai chi chuan, ou qualquer coisa que tivesse alguma relação com o equilíbrio das energias ou algo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu-se a descarga e logo Armando saiu do banheiro com o jornal debaixo do braço e com os pensamentos no infinito. Ele nem lavou as mãos. Desceu e foi cortar mamão, banana, maçã e pêra para bater com leite. Ele gostava de passar a faca pelo mamão para retirar as sementes, era muito macio, com pouquíssima resistência, quase como margarina, mas no caso da margarina não haveria pretexto para cortá-la e cortá-la para ter aquele estranho prazer. Algumas passadas de faca e pronto, a margarina retornaria à geladeira. O mamão tinha que ser picado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entornou tudo em seu copo favorito, grande, de plástico e azul. Caminhou pela cozinha bebendo a vitamina em goles longos e logo terminou. Encheu de água e deixou na pia, já pensando no que faria em seguida. Foi até a janela, viu que era um bonito dia e respirou fundo. Resolveu sair para sentir o ar da manhã, tomar um banho de sol e ouvir os pássaros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo que abriu a porta, foi abordado por Roberto que babava e sacudia o rabo. Armando sempre achou idiota a idéia de dar nome de gente a cachorro e era o que Lúcia havia feito. Ela deu o nome de Roberto ao pastor alemão deles, Armando não achou bom, mas preferiu deixar assim, pois em sete anos de casado nunca havia colhido um fruto sequer de uma discussão que não estivesse podre, corroído com culpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi brincar com o cachorro. Uma das brincadeiras era correr pelo quintal para ser seguido por Roberto. Não falhava, o cão sempre o seguia por todo o quintal, de perto. Às vezes, Armando parava e invertia a perseguição, mas isto durava pouco, pois Roberto era muito mais ágil e logo o deixava para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então começaram a brincar com a bola. Armando jogava e Roberto trazia de volta, divertimento familiar clássico. Roberto nunca ficava entediado, afinal, tudo que queria na vida era comer, ficar correndo e dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“PEGA!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Roberto voltou com a bola nos dentes, colocando-a no chão perto de Armando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“BOM GAROTO! HA HA HA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim continuaram, até que um barulho muito estranho chamou a atenção de Armando. Vinha de trás da casa, do outro lado do quintal e foi um som isolado, de algo que havia atingido o chão e ficado lá, silencioso. As orelhas de Roberto se ergueram e Armando franziu a testa. Ele foi ver o que era. Andou e viu, no chão, o que parecia ser uma pequena pilha de trapos. O cão chegava perto, interessado, mas divagar na espera da decisão do dono. Armando chegou mais perto, curvou-se e olhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que é isso? Não é possível que seja isso mesmo. Será que é de verdade?” Pensou Armando enquanto mexia naquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um bebê negrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armando o apanhou muito perplexo, completamente chocado. Enquanto o erguia, a cabeça da criança tombava mole para trás. E ele olhava para aquilo, examinando como se fosse uma coisa, um boneco. Mexeu num dos braços e viu que não era uma articulação de brinquedo. Começou a sentir com os dedos que era mesmo pele e que havia a maciez da carne. Os olhos estavam fechados, a cabeça mole, não havia nada além dos trapos e da criança, nenhum bilhete, nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após responder às perguntas que ele mesmo fez, uma pontada violenta de desespero, misturado com ansiedade e angústia o furou no peito e fez suas pernas tremerem. Sua visão quase que sumiu por completo e ele tremia todo, com os pensamentos bloqueados. Entrou em casa com o passo acelerado e colocou o bebê sobre uma mesa. Olhou, olhou, mexeu nele, colocou um pouco de água na cabeça para ver se acordava e nada. Teve a idéia de tentar ouvir o coração do menino, mas para isso tinha que se acalmar, pois do contrário não se concentraria o bastante e acabaria ouvindo o próprio coração que, furioso, tentava quebrar o peito para fugir. Fechou os olhos e respirou fundo. Inclinou-se e encostou o ouvido na criança. Nada. Era um bebê de verdade e estava morto. Mas como? O barulho! Ele poderia ter caído do telhado! Não, um bebê no telhado? Isso seria ridículo! Talvez estivesse morto antes de cair. Alguém deveria ter jogado, mas não de cima do telhado, e sim do outro lado do muro, onde havia um terreno baldio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armando voltou correndo ao quintal e puxou um banquinho para que pudesse olhar por cima do muro. Não havia ninguém, nenhuma pista do que poderia ter acontecido. A rua atrás do terreno estava vazia e as casas dali estavam mortas. Apenas o vento e os pássaros, que de repente se tornaram uma turma de inúteis aos olhos dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceu e pôs-se a andar de um lado para o outro no quintal, sem idéias. O que poderia fazer? Não dava para simplesmente jogar o bebê fora e fingir que nada havia acontecido. Ou será que dava? Mas e se alguém descobrisse? Era um cadáver que ali estava, uma vida que havia se perdido, pobrezinho. Talvez o melhor fosse buscar ajuda, ligar para a emergência, eles é que cuidassem de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou a olhar por cima do muro. Bateu-lhe um pressentimento de que algo pudesse ter mudado e ele se sentiu compelido a verificar. Não havia nada. Olhou com cuidado, na esperança de surpreender alguém escondido em meio aos arbustos ou se esgueirando por trás de um muro para espiá-lo de volta. Não conseguiu ver ninguém. Era inútil, seja lá quem fosse já teria fugido. Sem conseguir pensar em nada melhor, Armando entrou e se dirigiu à sala para usar o telefone, não sem antes parar diante da criança e fixar a atenção nela por alguns instantes. Continuava lá, do mesmo jeito, nenhum indício de ter se movido, nenhum barulho, nenhum choro. Tinha um cheiro diferente apenas, um cheiro de algum outro lar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi à sala e retirou o telefone do gancho, mas o que iria dizer? Só poderia falar a verdade e nada mais. Discou nove, um, um e esperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que idiota! É um, nove e zero!” Pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apertou o botão para desligar e respirou fundo. Começou a apertar as teclas, primeiro o um, depois o nove e antes que pudesse terminar, ouviu o forte barulho da porta que dava para a garagem se abrindo. Era uma porta que tinha uma parte de vidro que sempre vibrava e fazia um som alto, e que era alto demais para aquele momento. Instantaneamente, virou a cabeça na direção da garagem e ficou segurando o telefone mudo. Teve a estranha idéia de que agora seria um bebê negrão, gigante, forte e ruim que vinha pegá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os passos na escada foram ouvidos até que a imagem de Lúcia aparecesse, com algumas sacolas nas mãos e uma casualidade que cavava um abismo entre ela e Armando. Este a olhou muito nervoso com o telefone na mão esquerda e a direita o tapando como se não quisesse que ouvissem o que fosse dito. Ela estranhou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que foi, Armando?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lúcia, onde você estava?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como assim onde eu estava? O que aconteceu com você?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu... você não faz nem idéia! Eu estava no quintal, deve ter uns quinze ou vinte minutos. Eu estava no quintal com o Roberto, você sabe, brincando, daí eu ouvi um barulho e fui ver o que era. Você nem imagina, era uma porra de um bebê que jogaram no nosso quintal! Eu peguei e trouxe para dentro, não sabia o que fazer! Já pensou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcia o olhava atentamente e, embora se sentisse muito surpresa, conteve-se e não se deixou tomar pela alteração do marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vem aqui para você ver.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela o seguiu até a mesa, onde pôde ver a criança, por entre os gestos de Armando, que apontava e dizia: “Olha aí, era desse bebê que eu estava falando!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhava tudo com muito pesar, mas calmamente. Avaliava a situação em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, quando você chegou eu estava ligando para a polícia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o que você ia dizer a eles, Armando?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A verdade! Que ele caiu no quintal e eu não consegui descobrir por que.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E quem acreditaria numa história dessas? Você parou para pensar nisto, Armando? Eu mesma estou achando difícil de acreditar em você. Se não o conhecesse ia dizer que é louco ou mentiroso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armando não soube o que dizer em seguida, e Lúcia continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Imagina só, você é da polícia e liga um cara dizendo que está com um bebê morto nas mãos e que não sabe como ele foi parar ali. A história é muito esquisita, é pedir para ser suspeito. Você sabe como eles são, ainda é capaz de pedirem dinheiro para não fazer nada. Aí a gente não paga e pronto, queimam a gente!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas Lúcia, a gente é inocente! A gente é quase que vítima nessa história!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só sabemos disso nós dois e quem jogou o bebê.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então o que, vão falar que a gente seqüestrou, roubou a criança e matou? Pra que?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei, isso ia ser com eles, mas por que não? A gente tá casado há sete anos e ainda não conseguiu ter um filho. Tem até as tentativas registradas na clínica. Por isso a gente poderia ter roubado de alguma maternidade, ou de alguma mãe desamparada. Depois o menino poderia ter morrido por qualquer coisa, doença, acidente, negligência, enfim. Qualquer história que inventarem vai ser mais convincente do que a que você me falou!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas e aí? Como é que vai ficar? Esse menino tem mãe também, e ela deve estar desesperada. Como é que a gente pode esconder isso da polícia?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Armando, pode ter sido a própria mãe que jogou a criança aqui, você sabe como é essa gente! Ainda vai ser capaz de pedir indenização!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso você não tem como saber!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vou, não vamos correr o risco.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquela altura, a agitação de Armando ainda não havia diminuído, apenas houve uma mudança na tônica de suas emoções. Ele ia deixando de ficar triste e angustiado para ficar com raiva, raiva por não conseguir encontrar a melhor solução para o caso, raiva por suas sugestões serem tratadas como imbecilidades pela esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que não enterramos o bebê no quintal então?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá louco Armando? A terra do quintal é rasa, e o Roberto enterra e desenterra tudo ali, você bem sabe disso! Não quero o Roberto trazendo caveira de criança no meio de um churrasco, quando estiver cheio de gente!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A gente põe numa caixa e veda bem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que caixa? Você vai construir? Onde a gente vai achar um caixãozinho em pleno domingo? E tem mais, eu não quero isso aí no meu quintal, que coisa mais mórbida!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcia foi até o quintal e subiu no banquinho que estava próximo ao muro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As crianças todas já saíram para brincar. Não vai dar para enterrar no terreno, todo mundo ia ver.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não tinha ninguém quando aconteceu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas agora tem, e vai ficar assim até à noite. Armando, eu não quero perder meu domingo por causa disso, a gente tem que dar um jeito nisso logo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos levar para algum lugar bem longe e aí a gente enterra, ou joga no quintal de alguém, ou deixa na frente de um hospital.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seu carro tá na oficina, esqueceu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A gente podia levar no seu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“NEM MORTA!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que não?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Primeiro que vai demorar pra caramba pra achar algum lugar seguro. Vai levar o dia todo naquilo de, peraí, aqui não está bom, tem gente olhando, enfim, não dá, imagina o estresse! Depois, a polícia fica parando os outros no domingo pra procurar droga, eu vi a reportagem. Já estou até vendo o que vai ser, eles vão parar a gente, vão ver o embrulho, descobrir o bebê e aí você vai contar a sua história ridícula do quintal! Não quero!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcia entrou em casa e foi seguida por um Armando totalmente desconcertado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ué, então eu não sei o que fazer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tem um jeito que é o mais rápido e seguro. O esgoto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como assim, não dá pra simplesmente pegar e jogar no esgoto!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Do jeito que está não dá mesmo, por isso que você vai ter que cortar em pedaços e jogar na privada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O QUÊ? TÁ MALUCA? EU NÃO VOU FAZER UMA COISA DESSAS!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não grita! Você vai ter que fazer, é o único jeito. O que, você não agüenta? Por acaso é esse o problema, você é um FROUXO?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armando não respondeu, estava transtornado demais para dizer qualquer coisa. Não poderia simplesmente dar as costas para tudo aquilo e sair, como faria se fosse uma briga normal. Não era, dessa vez eles tinham um problema ali, que não respirava e nem tinha pulsação, mas estava agitando o domingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu do transe com o barulho da gaveta da cozinha sendo aberta e Lúcia mexendo nos talheres. Pôde ouvir um sussurro macabro: “cadê, cadê...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, está aqui.” Disse Lúcia segurando a faca de açougueiro que usavam nos churrascos. Era muito afiada e grande. Ela veio andando e pousou o instrumento com naturalidade ao lado do bebê, como se fosse uma enfermeira na preparação de uma cirurgia. Armando só ficou olhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ela pegou o avental que estava pendurado e jogou na direção de Armando, dizendo: “Toma.”. Ele o segurou junto ao estômago e ficou amassando aquilo cheio de ressentimento. Os dois ficaram se olhando por um tempo, numa guerra silenciosa. Parecia que nenhum deles cederia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Anda logo, veste isso Armando, para não se sujar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já falei que não vou fazer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Qual o problema, Armandinho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não me chame de Armandinho!” E colocou o avental, rendido e contrariado. Olhou furioso para ela e apanhou a faca. Virou-se para o bebê e ficou ensaiando os golpes. Nenhum jeito parecia o correto, não sabia como começar e recuava quando previa o sangue escorrendo na mesa. A mulher batia o pé no chão levemente enquanto o marido hesitava. Ele pensava, tentava racionalizar tudo aquilo para criar coragem. Lúcia parecia tão resoluta, talvez ela tivesse razão. Além do mais, nem sempre a vida é do jeito que a gente gostaria, não dá para ficar esperando que as coisas aconteçam para nos agradar todos os dias. Tomar decisões difíceis como aquela era parte de ser homem. E aquele bebê, bem, Armando sabia que não tinha culpa, não poderia ter evitado a morte. Na verdade, foi muito bom ele estar ali bem na hora que a criança apareceu, porque se não tivesse ninguém, provavelmente o Roberto ia comer e seria pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou paralisado com a faca quase encostando no corpo sobre a mesa. Não percebeu que ele mesmo tinha parado de respirar. Lúcia já estava perdendo a paciência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esquece Armando, assim não vai dar. Vou chamar o seu irmão, o Marcão. Ele não tem esse tipo de problema.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última palavra de Lúcia foi pontuada pela faca que desceu com tudo sobre a mesa e decepou um braço do bebê. Como conseguiu quebrar a inércia, Armando foi até o fim, com uma expressão que oscilava entre o horror, o nojo, a raiva e o medo. Não conseguiu pensar em nada, fazia tudo por fazer. Apenas observou em silêncio que era mais difícil que cortar mamão, por causa dos ossos, e que teria que cortar bem pequeno e fino para não entupir a privada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcia, aproveitando-se da boa vontade do marido, trouxe um martelo de bater carne e disse: “A cabeça não vai passar, você vai ter que amassar.”Armando obedeceu já visivelmente perturbado e enjoado. Depois de bater bastante, foi ao banheiro vomitar. Não suportou aquele cheiro de açougue. Sentou-se perto da privada e ainda tinha o martelo na mão que, como o avental, estava sujo de sangue. Encostou as costas na parede e respirou ofegante, precisava de um tempo. Tremia e começou a chorar. Olhou pela janela do banheiro e observou as nuvens no céu, que passavam por cima de tudo num ruído contínuo e distante. Malditas nuvens!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Lúcia apareceu na porta do banheiro e ficou olhando para ele. Armando não sabia o que esperar dela, ficou tentando adivinhar o que ela estava achando dele. Então ela disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Os pedaços não vão pular sozinhos na privada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armando ergueu-se e foi terminar o serviço. Colocou tudo dentro de um balde e foi despachando aos poucos. Deu cinco descargas ao todo e foi tomar um banho merecido, para tentar esquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcia se dedicou ao acabamento da obra. Tudo que foi usado ela lavou e jogou fora. A faca, o martelo e o avental. O balde também, e até a mesa ela esfregou, desmontou e jogou fora. Todos os panos também, ela deixou de molho e jogou tudo fora, bem limpos. Por fim, se desfez das luvas que usou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a noite chegou, os dois estavam na cama vendo televisão e Armando fazia algumas carícias:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que seria de mim sem você? Você é tão decidida e sempre sabe o que fazer, será que eu te mereço?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Querido, você é um grande homem, só precisa de um empurrãozinho às vezes.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles sorriram um para o outro e se beijaram de um modo tenro, devagar e sincero. Então fizeram amor. Ela por cima.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3675708-9039934863991014454?l=monte-de-palavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/9039934863991014454/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3675708&amp;postID=9039934863991014454&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/9039934863991014454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/9039934863991014454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/2007/09/o-domingo-manh-de-domingo-havia-acabado.html' title=''/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708.post-272205561805492944</id><published>2007-08-28T19:52:00.000-07:00</published><updated>2010-01-11T06:13:14.194-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;KELLY&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5104685333597297634" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/Rtd8Q982m-I/AAAAAAAAABc/GtK45cZZrCY/s320/Ipa.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;O corpo da moça violentada havia sido encontrado há dez dias, e Cabral estava pensativo na Polícia Civil, decidindo sobre o rumo das investigações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A descoberta foi o resultado de uma ligação anônima feita ao disque-denúncia da Secretaria de Segurança Pública. A pessoa disse que havia uma movimentação suspeita em uma construção, próxima à casa dela. A denúncia foi posta a termo e enviada à Polícia Civil, tendo chegado às mãos do Delegado Florêncio Neves, que expediu a ordem de serviço aos investigadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ordem foi recebida pela equipe do investigador Cabral, um homem que tinha força no caráter e no corpo. Não tinha nojo de nada, apenas o forte senso de dever e a tenacidade dos homens simples e seguros. Ele cumpria sua função com José Eduardo e Rogério, investigadores mais novos que o respeitavam suficientemente. Ao delegado davam sua obediência e ao Cabral, seu respeito, exceto pelo fato dele torcer para o Corinthians. As conversas sobre futebol sempre terminavam com Cabral sendo zoado por todos, por ser torcedor do timão. Eles diziam que aquilo não ficava bem para um policial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral argumentava que, ao prender, perguntava ao meliante qual era o time de seu coração. Afirmava, com fingida propriedade, que, estatisticamente, os principais times de São Paulo eram representados de modo equilibrado pela criminalidade. É claro que ele nunca perguntava, mas era bem capaz que alguém acreditasse nessa história, tamanho era o seu prestígio. Lembrava-se da brincadeira sempre que prendia alguém que estava com a camisa do Corinthians. E era freqüente, para seu pesar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, numa manhã de segunda-feira, Cabral recebeu a denúncia que o levaria ao cadáver da moça. Toda a informação que tinha era o endereço e uma suposta movimentação suspeita no local. Como se tratava de uma construção, preferiu ir já de manhã para aproveitar a luz do Sol e para não se arrepender depois, pelo indevido desprezo de seu instinto, que naquela hora lhe indicava a necessidade de urgência. Era algo intangível, uma pista, um palpite escorado pela experiência, os alicerces do que logo seria um raciocínio lógico. Cabral aprendeu a confiar nestes fantasmas, pois quase sempre eles ganhavam a densidade da carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrumou suas coisas, ajeitou o revólver. Chamou seus colegas, mas apenas Rogério estava disponível. Os dois rumaram para a viatura descaracterizada, uma Ipanema preta, e seguiram para o local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cabral, eu estou de saco cheio do Gérson, cara.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Gérson é um pau-no-cu mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei, mas é que ele tá passando dos limites, Cabral. O cara é muito folgado, meu! Só fica coçando o dia inteiro e nunca tá perto quando precisa. O celular dele tá sempre fora de área. E ontem eu ouvi uns boatos...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Boatos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É cara. Boatos. Parece que ele fica atormentando magnata, meu. E a pedido de outro magnata ainda. E ganha uma grana violenta nesse negócio aí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, eu não sei não, Rogério. O Gérson é muito, mas muito chato mesmo, e por isso eu nem fico surpreso de ouvir essas coisas. Intriga na polícia é uma merda. Cansei de ver uma porrada de marmanjo se comportando feito bichona, porque não ia com a cara do outro. Agora, o Gérson é um cuzão. Fato. Mas acho que o pessoal tá inventando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É, pode ser.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fique de olhos abertos, de todo modo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que é aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A construção de uma casa. A visão triste e comum de uma obra paralisada. Uma vizinhança pobre, uma criança perseguindo bandidos imaginários com o triciclo na calçada, uma arma de plástico em sua mão e sons imitados por sua boca, que soavam mais como bombas que como tiros. Ao fundo, o barulho de uma panela de pressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral e Rogério se aproximaram. Qualquer um poderia entrar lá, a qualquer hora. Seja lá o que houvesse de suspeito por ali, já havia desaparecido, ou se escondido nos projetos de corredores da casa. Cabral pediu que Rogério sacasse a arma e ficasse de prontidão. Então, fez bastante barulho, jogou pedras e telhas que estavam no chão. Era mais fácil colocar fogo no mato do que se embrenhar nele para pegar o rato. Ninguém se apavorou pela algazarra. Ninguém saiu correndo, ninguém apareceu para atirar. Poderia não haver nada lá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas havia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entraram, por lados diferentes, adotando uma aproximação mais silenciosa. Foi Rogério que encontrou a moça. Chamou Cabral, que logo apareceu e constatou os sinais de violência sexual no corpo seminu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, dez dias depois, Cabral estava pensativo, sentado na sala dos investigadores. Já havia tomado várias providências, conseguiu a assinatura do delegado para várias ordens de serviço. Mandou interrogar os parentes, os amigos da vítima e pessoas da vizinhança, identificou o dono do terreno, o engenheiro responsável pela obra e quis saber sobre cada um dos homens que havia trabalhado lá. Isto seria difícil. Provavelmente, não saberia sobre todos, talvez algo sobre os últimos. Conferia agora os relatórios em que estavam registradas as diligências, e era uma baita papelada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso havia causado comoção geral. Por várias vezes, a população saiu às ruas, vestindo camisetas com a foto da menina e protestando. O nome dela era Kelly, tinha 18 anos, gostava de sair com as amigas, de cantar no chuveiro e odiava falsidade, inveja e pessoas que se achavam melhores que as outras. Violência urbana era muito comum, mas aquilo, como sempre, parecia ter sido a gota d’água. Cabral já estava estranhando a persistência do sentimento e a força que aquilo ganhava a cada dia. É claro que a imprensa fazia seu papel, repisando e repisando a ocorrência, mostrando fotos da menina direto, e cobrando as autoridades por meio de âncoras indignados. Na véspera, várias pessoas passaram reclamando, muito contrariadas, em frente ao próprio prédio da Polícia, ostentando faixas e cartazes, e alguns usando aquele nariz de palhaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio à multidão, várias frases podiam ser ouvidas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“OS MARGINAIS ESTÃO RINDO DA LEI!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“ATÉ QUANDO ESSA IMPUNIDADE?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É REVOLTANTE! O BRASIL ESTÁ DE LUTO!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O BANDIDO RESPEITOU O DIREITO DELA?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral também estava muito perturbado por tudo que tinha ocorrido, afinal, ele também tinha filhos. Mas olhava para a situação de um modo menos passional. Pela sua concepção, um grande dano havia sido causado, algo que nunca seria reparado. Mas dali em diante, seria impossível fazer Justiça. O máximo que se poderia obter era a medida preventiva, encontrar o responsável para que, se mais crimes ocorressem, que ao menos fossem pelas mãos de outro homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral olhou a relação de alguns homens que estavam entre os últimos a trabalharem nas obras. Passou os olhos pelos nomes e começou a checar as fichas em anexo. Uma delas chamou a atenção: internações na FEBEM por furto qualificado, roubo a mão armada e lesão corporal dolosa. O único com antecedentes, o único que já havia despejado violência criminosa sobre o mundo e conhecido a face mais sincera do Estado. Josimar Aparecido dos Santos, 24 anos, residência fixa, pedreiro, casado e com três filhos. Mora no mesmo bairro que a menina, não muito longe da construção. Seria este o homem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O inquérito policial já havia sido instaurado e tramitava sob os cuidados do escrivão Edson. Cabral entregou o material novo ao escrivão, que o juntou aos autos e os enviou ao Delegado Neves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O expediente terminou e Cabral voltou para casa, tentando não ser policial perto da família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, o Delegado examinou os autos, a ficha de Josimar lhe chamou a atenção. Aquilo era, sem sombra de dúvida, um grande progresso nas investigações. Da próxima vez que os repórteres viessem perguntar, ele poderia dizer que já não estavam mais de mãos vazias. Ali estava um possível suspeito, alguém que muito em breve poderia pôr um ponto final na história toda. Fora este homem, nada de relevante havia sido descoberto, nenhuma testemunha, nenhum inimigo, nenhuma ameaça, nenhum ex-namorado furioso. Não haveria nada se não fosse por Josimar, o pedreiro delinqüente, desgraçado, ordinário, sem-vergonha, estuprador e filho da puta. Mais uma ordem de serviço expedida, dessa vez para que o pedreiro fosse ouvido na Delegacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era cedo e Cabral ainda não havia chegado. Os outros colegas de equipe estavam ocupados, averiguando outras denúncias anônimas. A ordem de serviço chegou à sala dos investigadores e encontrou as mãos de Gérson, o cara de que ninguém gostava. Ele pegou o papel e pôs-se a ler. Em poucas linhas já percebeu que era relacionado ao caso da Kelly, o mesmo caso que o BONZÃO do Cabral estava supervisionando. Bem, havia um carimbo de urgente na folha, portanto, Cabral não poderia reclamar depois por Gérson ter cumprido uma diligência tão importante, que não poderia esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gérson não hesitou, fez com que a pança apontasse porta afora e foi pegar o malandrão. Entrou uma viatura preta, vermelha e branca que espalhava orgulhosa para todos que era da Polícia Civil. Saiu cantando pneu, rumo à casa de Josimar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho ligou o rádio. Não o da Polícia, o FM:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“You better run, you better do what you can! &lt;/em&gt;&lt;em&gt;Don't wanna see no blood, don't be a macho man! &lt;/em&gt;&lt;em&gt;You wanna be tough, better do what you can, s&lt;/em&gt;&lt;em&gt;o beat it, but you wanna be bad!”&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Curtiu o som e aumentou o volume:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Just beat it, beat it, beat it, beat it! &lt;/em&gt;&lt;em&gt;No one wants to be defeated! &lt;/em&gt;&lt;em&gt;Showin' how funky and strong is your fight! &lt;/em&gt;&lt;em&gt;It doesn't matter who's wrong or right! &lt;/em&gt;&lt;em&gt;Just beat it, beat it Just beat it, beat it”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto do local, o capeta fez uma visita a Gérson e pôs-lhe um sorriso maléfico no rosto. Ele resolveu ligar a sirene e chegar a toda velocidade, fazendo o maior escarcéu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas ficaram assustadas e começaram a espiar pelas janelas. Tudo aquilo tinha que ter alguma coisa a ver com o caso Kelly.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gérson parou e saiu da viatura com a arma empunhada: “AQUI É A POLÍCIA PORRA!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral apenas conseguiu chegar no prédio da polícia no final da tarde. Havia recebido uma ligação de seu colega José Eduardo pedindo ajuda para cumprir uma ordem. Ele tinha que ouvir várias pessoas de uma empresa acerca de uma denúncia de estelionato e precisava da experiência de Cabral. A tarefa foi demorada e acabou se apurando que não havia crime ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que chegou, Cabral foi falar com o escrivão Edson sobre o caso Kelly. Edson contou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah sim, Cabral, hoje o Dr. Neves ouviu aquele pedreiro, o Josimar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tão rápido assim?” A voz de Cabral escondia muito mal sua instantânea apreensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah é, quem trouxe o camarada aqui foi o Gérson.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Gérson? Posso ver o termo do depoimento?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edson entregou a folha com o depoimento de Josimar e lá estavam, nome completo, filiação, data de nascimento, número do documento, estado civil, ocupação e as declarações. Cabral leu. Josimar só falava em Jesus. Disse que era evangélico há dois anos, que havia se arrependido do que tinha feito na juventude, e que a FEBEM era horrível. Até começava a ser pastor. Disse que conhecia Kelly da vizinhança e que aquela era uma menina abençoada, todo mundo gostava dela. Afirmou que tem orado por ela todos os dias e que estava muito triste pelo que havia acontecido. Foi pedreiro, e o trabalho naquela construção havia sido o último. Todos foram dispensados antes do término da obra, ele ficou desempregado, mas logo Deus operou um milagre em sua vida e permitiu que vivesse com a ajuda da igreja. Nunca havia conversado com Kelly, a conhecia apenas de vista. Disse que tinha três filhos, e que a mulher estava grávida do quarto. Não havia visto nada de suspeito nas imediações da construção nas últimas semanas e, desde que começou na igreja, tem passado a maior parte do tempo lá, auxiliando na parte administrativa e participando dos cultos. Nada mais disse e nem lhe foi perguntado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral devolveu o papel a Edson e este comentou: “Não teve indiciamento e nem nada, não temos nada contra esse cara. Pedimos para ele ceder material, para que o Instituto de Criminalística compare com o esperma encontrado na vítima, e ele fez isso sem problema, foi muito solícito. Inclusive, ele nasceu na mesma cidade que o Dr. Neves, então os dois passaram um tempo falando sobre isso, sobre como o interior está diferente, essas coisas. É Cabral, isso só quer dizer que vai ter mais trabalho ainda para você”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral não quis alimentar a conversa, sua perturbação crescia, pois sabia que aquilo tudo era muito ruim. Estava convicto de que precisava agir rápido. Saiu da sala dos escrivães e atravessou o corredor, até passar pela sala dos investigadores. O plano inicial era seguir em frente, mas quando viu Gérson lá dentro teve que parar. Não chegou a entrar, apenas inclinou a cabeça porta adentro e vociferou exasperado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“GÉRSON! VOCÊ É UM FILHO DA PUTA MESMO, HEIN?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos na sala ficaram estáticos. Gérson não se atreveu a responder, pois havia ficado claro para todos que aquela era uma pergunta retórica. A única resposta veio da janela, que tremeu de modo imperceptível diante da voz de trovão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral seguiu pelo corredor, vermelho. Rogério, seu colega de equipe, conseguiu sair do pequeno choque que envolvia todos na sala e o seguiu até a Ipanema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sol estava terminando de se retirar e Josimar estava no chão debaixo de uma pancadaria que poderia ser comparada ao martírio de Cristo. Assim que deu as caras no bairro, a notícia se espalhou, e a população revoltada se aglomerou para recebê-lo. Estava a um quarteirão de sua casa quando foi atropelado pela manada e cada um dos populares queria fazê-lo pagar pela morte de Kelly. O linchamento de Josimar não foi planejado, foi espontâneo, veio do calor do momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“COMO VOCÊ TEVE CORAGEM DE FAZER AQUILO COM A MENINA SEU MONSTRO?” e bateram-lhe com um martelo que o atingiu no cotovelo com toda a força quando tentou se proteger. O choque impediu que continuasse se defendendo e logo ele não conseguiu mais correr.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“NÃO TEM LEI NESSE PAÍS! DEIXARAM O ASSASSINO SOLTO!” e tome paulada na cabeça, chute na barriga, pedrada na nuca, soco no peito e arranhão no pescoço. “CHEGA DE IMPUNIDADE!” e tome pisão por tudo quanto era parte do corpo de Josimar. Sentiu muita dor, seu coração disparou, toda a adrenalina veio lhe aumentar o desespero e apenas pôde implorar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“PAREM! PELO AMOR DE DEUS PAREM!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“VOCÊ PAROU QUANDO ELA PEDIU? VOCÊ PAROU QUANDO ELA CHOROU? MONSTRO!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única coisa que podia fazer era gritar de dor e chorar. A únicas palavras que saíam eram pedidos de clemência. Eram fracos “nãos” que saíam de seu coração pisoteado, mas ninguém se comoveu. Ninguém parecia ver a trágica expressão de agonia em seu rosto, pois o sangue a cobria. Estava ficando deformado e o corpo todo anestesiado, apenas sentia seus membros sendo repuxados e o seu corpo balançando na física das pancadas. O mundo foi sumindo e o pouco de consciência que sobrou foi canalizada para a oração:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deus todo poderoso, me ajude, me dê paz, faz meu sofrimento parar... Deus misericordioso, me socorra em sua glória...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois estrondos interromperam tudo que acontecia ali. Era Cabral que corria em direção ao massacre dando tiros para cima a fim de espantar a multidão. Rogério o acompanhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Rogério, rápido, tem um batalhão da PM que não é longe! CHAMA OS CARAS!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rogério obedeceu e foi até à viatura. Cabral continuou, teve que disparar mais um tiro para o alto. “AQUI É A POLÍCIA! PODEM PARAR COM ESSA MERDA!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas pararam de dilapidar o corpo de Josimar e olharam para a arma de Cabral intimidadas. Era como se um predador maior e mais perigoso houvesse se aproximado. O investigador olhou para Josimar e notou que ele ainda se mexia, ainda respirava, mas estava num estado deplorável. Vomitava sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Josimar virou a cabeça, abriu os olhos na direção de Cabral com a arma empunhada. Não entendeu nada, pois tudo que se lhe apresentava era um vulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A situação ficou assim por alguns minutos. Cabral formou um círculo de proteção em torno de Josimar à distância, apontando a arma para todo aquele que tentasse chegar perto. Às vezes dava advertências em alto e bom som para que ninguém se movesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Polícia Militar começou a chegar e foi seguida por uma ambulância. Os PMs controlaram a multidão e os para médicos seguiram com Josimar para o hospital. Cabral e Rogério entraram na viatura e seguiram a ambulância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rogério reclamou no caminho: “Que merda isso vai dar, cara”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabral comentou, tenso: “Puta que pariu, é muito difícil que tenha sido ele. Não tinha nenhum crime sexual ou homicídio na ficha dele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Josimar morreu a caminho do hospital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três meses depois, Cabral lutava para continuar com as investigações, mas ninguém queria mexer na caixa de marimbondos. Foi quando chegou o laudo pericial do Instituto de Criminalística, atestando que o esperma encontrado na vítima não era de Josimar. Ele era mesmo inocente. Àquela altura, não se falava mais tanto do caso Kelly na televisão, nem nos jornais. A inocência de Josimar foi noticiada de maneira tímida, rápida, e o apresentador do telejornal logo passou para o assunto seguinte, sem fazer qualquer comentário de indignação, sem cobrar as autoridades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém fez passeata com cartazes e a foto de Josimar estampada na camiseta. Ninguém saiu às ruas para mostrar seu repúdio à impunidade presente no país e para clamar por Justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no bairro de Kelly e Josimar, as pessoas espiavam o mundo encolhidas atrás das janelas. Todas amarelas e acuadas, prontas para darem o bote.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3675708-272205561805492944?l=monte-de-palavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/272205561805492944/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3675708&amp;postID=272205561805492944&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/272205561805492944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/272205561805492944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/2007/08/kelly-o-corpo-da-moa-violentada-havia.html' title=''/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/Rtd8Q982m-I/AAAAAAAAABc/GtK45cZZrCY/s72-c/Ipa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3675708.post-5803311795199453096</id><published>2007-08-22T04:42:00.000-07:00</published><updated>2010-01-11T06:12:55.739-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;SEM FUTURO.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBS5N82m5I/AAAAAAAAAA0/PJmJ3BrwkKI/s1600-h/guile.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5102669520761691026" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBS5N82m5I/AAAAAAAAAA0/PJmJ3BrwkKI/s320/guile.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Jefferson era um garoto d&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBSSt82m4I/AAAAAAAAAAs/0vTMh5Hp5Gk/s1600-h/guile.gif"&gt;&lt;/a&gt;e oito anos que não chamava a atenção de ninguém. Alguns, nas raras ocasiões em que pousavam os olhos sobre ele, o achavam parecido com um rato. Outros achavam que ele não se parecia com nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson acordou bem disposto naquela manhã de sábado, embora estivesse sendo esmagado pelo peso de adversidades que ele nem imaginava que pudessem existir, como os problemas sociais que limitavam sua vida e a massacrante deficiência da estrutura emocional de sua família. Era um convívio cujas lições o menino já começava a assimilar sob a forma de taquicardias, choros freqüentes, febre e uma crescente agressividade. Era surpreendente que ainda conseguisse ter noites de sono tão boas como aquela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros irmãos, cinco meninos e três meninas ainda dormiam empilhados no mesmo quarto, serenos, aproveitando a presença de um teto sobre suas cabeças como se fossem reis. Os pais também estavam ali no meio e roncavam, encobrindo as crianças com uma respiração mais pesada, problemática, adulta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson vestiu sua camiseta mais nova, dentre as duas que podia escolher. Era branca, já encardida, com umas coisas escritas, uns desenhos e um número. Ele não sabia que aquilo tinha que significar alguma coisa, e se algo deste tipo lhe fosse sugerido, acharia muito estranho que sua camiseta tivesse algo a dizer. Apanhou sua caixa de engraxate e alguns trocados que estavam sendo escondidos para o sábado, e pôs-se a caminhar com altivez, o que era um excesso para um garoto de oito anos analfabeto. Na saída, encontrou Rambo, um cachorro vira-latas tratado pela mãe, que saudou o menino como seu mestre, sem barulheira e com muita dignidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O garoto abandonou o casebre, escoltado por Rambo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ar estava um pouco turvo por causa da terra que subia. Jefferson já estava familiarizado com a visão, pois era sempre o rastro deixado pelo Fiat 147 do vizinho Jorge. Ele deveria ter saído há pouco tempo. Uma pena, pensou o menino, pois podia ter conseguido uma carona para a cidade e, bem mais rápido do que esperava, estaria no centro destruindo a vida de alguém no fliperama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jeito era caminhar até o ponto de ônibus. O trajeto não era tão ruim assim, embora Jefferson nem pensasse sobre ele para cogitar reclamações. A travessia era sempre marcada por mulheres que penduravam roupas e conversavam, homens fumando cigarros e falando de futebol, além de algumas poucas crianças correndo, rindo e brincando. O tipo de imagem que persiste na memória, e que logo ganha aquele colorido todo especial da nostalgia. Jefferson não sabia, mas qualquer porcaria que acontecesse em sua vida naqueles dias seria lembrada com carinho em seu futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A figura do engraxate perambulando pelo bairro era algo com o que todos ali estavam acostumados. Era muito diferente do que acontecia no centro, em que as famílias boas passeavam e fingiam que não o viam. Será que alguém pensa sobre o que está passando pela cabeça de um engraxate quando cruza com ele pela rua? Na verdade é o mesmo que acomete toda criança; sonho, fantasia, vontade de vencer e passar por cima de tudo. Vontade de dominar o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson havia escolhido começar pelos fliperamas da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uma caminhada de dez minutos, ele chegou ao ponto. Rambo, sentado ao seu lado, já condicionado pela repetição, esperava que o ônibus chegasse para entregar seu amo à proteção do vagão de lata. Rambo nunca poderia ter noção do que era a circular, mas já havia aprendido que o menino não precisava mais dele quando lá subia. Então ele passeava um pouco e fazia um social com seus colegas da vizinhança, à moda dos cães. Às vezes ele tinha sorte e topava com uma cadela no cio, e tudo funcionava mecanicamente, como ocorre com alguns homens. E como alguns homens, ele não poderia ter a menor medida de quantos filhos tinha espalhado por aí. E como alguns homens, raríssimos é verdade, ele um dia havia encontrado uma cadelinha que era sua filha e foi pai dos próprios netos. Rambo era um cão velho e presepeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus chegou e parou para as pessoas que acompanhavam Jefferson e Rambo. Eram pessoas que pareciam boas, mulheres na maior parte, com sacolas de feira e a idade oscilando entre média e avançada. Todas exalavam o conforto das mães, avós e tias, mulheres que falam bastante e que pegam crianças no colo. Mulheres que compartilham entre si amarguras em segredo, mas que sorriem para o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus era de um amarelo velho e tinha algumas linhas nas laterais que variavam entre o marrom e o vinho. Em cima delas, em marrom, estava escrito circullaire, pois apenas circular seria muito sem graça. O menino subiu e passou por baixo da catraca. Logo que encontrou uma cadeira de plástico vazia, sentou-se. Estava ansioso, sua felicidade de criança transbordava. Olhou pela janela e viu o ponto se afastando cada vez mais rápido. Notou que Rambo, sentado com a língua de fora, ainda olhava para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem não demorou mais que quinze minutos. Era cedo, não havia trânsito. E era sábado. Como sempre, o menino prestou atenção ao percurso, ao modo como o ônibus descia os morros da vizinhança em direção ao centro. Passou pelo comércio de bairro, e olhou para aquelas lojinhas cheio de esperança. Ele sempre poderia guardar uns trocados para comprar aquelas balas que ficavam nos potes de vidro no balcão. Os brinquedinhos de plástico como carrinhos, aviões e soldados o fascinavam. Era tudo muito legal, e ele ainda não havia se ressentido por não poder tê-los. Numa descida, viu uma enorme escadaria de cimento na encosta, cercada por um verde que brilhava bonito ao Sol. Lembrou-se de quando sua avó o havia levado para passear por ali e lhe dera um sapo de borracha de presente. Era marrom, tinha os olhos vidrados e ficava com a boca sempre aberta. O pai havia jogado fora para ensinar alguma lição maluca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus parou no terminal próximo à praça da cidade, região em que havia lojas turísticas, hotéis, bancas de jornais e o bar. Aqui os jovens se encharcavam de cerveja. Jefferson, de certo modo, sentia que o destino natural de todo homem era embebedar-se, mas achava que sua vez ainda não havia chegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encostado na praça havia um hotel grande e tradicional, que encantava os turistas. No térreo havia uma galeria em que estava o melhor dos quatro fliperamas principais da cidade, e ela ficava aberta para todos. Na verdade, era difícil ver um hóspede jogando por lá. O lugar era dominado pela molecada, dos trombadinhas aos ricos e de crianças a adolescentes. Alguns adultos jogavam também, mas costumavam ser despachados sem piedade pelos meninos, que eram verdadeiros gladiadores nas máquinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson, aos oito anos de idade, era um prodígio. Jogava melhor do que engraxava sapatos e isto significava muito, pois era muito hábil em seu ofício. Posicionava o pé do cliente e ficava com a cabeça baixa, totalmente imerso. Não falava. Terminava o serviço mais rápido do que o normal, o que sempre causava espanto e desconfiança. Os homens o olhavam de lado, mas antes de lhe chamarem a atenção, davam uma conferida nos pés. Invariavelmente faziam uma cara que somava a surpresa à aprovação e pagavam com gorjeta. Jefferson gostava de ter este reconhecimento de um adulto. Não sabia que gostava, mas gostava de tudo, dos elogios abertos e dos silenciosos, do cheiro de couro, de graxa, de jornal e de cigarro. Sentia-se muito bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou na galeria a passos rápidos. Que lugar lindo era aquele, piso de madeira, paredes bem pintadas e conservadas e, em um dos lados, as paredes eram vidraças por onde a luz do dia poderia entrar e dar o brilho do ouro aos vencedores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo de manhã o fliperama estava movimentado. Outros engraxates já tinham chegado na frente dele e estavam jogando alucinados. A febre eram os jogos de luta, tanto os que em se poderia sair nas ruas batendo em pessoas vestidas como bandidos e punks, como aqueles de duelo. O grande termômetro dos fliperamas do mundo todo, o mais importante definidor de status entre os jogadores era o Street Fighter 2. Ou, como os garotos diziam, o estrite. Não sabiam o que o nome queria dizer, mas estrite era estrite, jogo de pancadaria, cheio de magias e poderes e lutadores do mundo todo. E aqueles botões? Eram seis botões que tinham de ser dominados, fora os truques com a alavanca para dar os golpes. O cara tinha que ser bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson foi até o caixa e comprou tudo que deu: cinco fichas. Segurou-as com força de ansiedade. Não podia perder, para ele era tudo sempre muito difícil, o desafio começava muito antes dele inserir a ficha na máquina e ouvir o som da ficha caindo para liberar o controle para ele. Na verdade, ele nem conseguia se lembrar de quando o desafio havia começado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino teve que esperar na fila. Foi-se o tempo em que se poderia procurar outro jogo. O Street Fighter tinha sucateado o resto, não valeria a pena desperdiçar fichas com os demais, não se o que se queria era fazer um duelo de verdade. Havia jogos muito legais como Final Fight, Vendetta e Tartarugas Ninjas, é verdade, mas Jefferson queria ser o rei, e não dava para ser rei disputando por ninharias. Apenas o Street Fighter poderia coroá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ele esperou. Só havia uma máquina de Street Fighter 2 ligada naquela manhã e a garotada estava caindo em cima, do mesmo modo que fariam com as meninas, após entrarem na puberdade. Havia um moleque que estava detonando os adversários, comendo as fichas de todo mundo. Ele parecia ter uns onze anos e jogava com um sorriso malvado e metido. Jefferson já o detestou de cara e decidiu mostrar quem dava as cartas por ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou a sua vez, o engraxate bateu na máquina cheio de moral e fez a ficha cair ruidosamente. Nem olhou para a cara do adversário. Escolheu logo o Ryu, pois estava a fim de apelar e sabia que não poderia facilitar contra o Guile de seu inimigo. A tela mostrou um avião voando até os Estados Unidos e, com um avião caça no fundo e alguns americanos de uniforme torcendo, a luta começou. A música era muito emocionante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada segundo que passava, Jefferson ia ficando mais furioso. O oponente não lhe dava chances, pois era muito rápido para soltar sonic boom, também conhecido como “alec-fu”. Era um poder que todos faziam devagar, pois era necessário segurar a alavanca para trás por um tempo para carregar o golpe. Mas este menino era fera, segurava no tempo preciso, não deixava nenhum instante sobrar. O mesmo acontecia quando aplicava o anti-aéreo do Guile, que chamavam de facão. Ele o usava toda vez em que Jefferson tentava saltar sobre os sonic booms. O engraxate foi encurralado e perdeu o round, tendo sido arremessado contra um caixote que estava no canto do cenário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é claro que isto não poderia ficar assim, Ryu ainda era mais forte e mais rápido que Guile. Seus golpes saíam com mais facilidade, todos sabiam disso! E Jefferson era bom, já havia desbancado vários Guiles em sua vida. Quando no começo do segundo round, o oponente lhe acertou um soco na boca, sua frustração cresceu e a raiva tomou conta. Deu mais firmeza às mãos e ficou mais concentrado. Com ódio no olhar, Jefferson começou a encaixar os “Radúguets” e “Roriúquens” de Ryu. Berrou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“CHUPA, FILHO DA PUTA!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBTmt82m6I/AAAAAAAAAA8/P8CoFrWD1Hs/s1600-h/ryu_guile.png"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5102670302445738914" style="CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBTmt82m6I/AAAAAAAAAA8/P8CoFrWD1Hs/s320/ryu_guile.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto esquentou a luta. A mesa virou de um modo que surpreendeu a pequena platéia da manhã de sábado. Jefferson estava dando um cacete no menino, cujo descontentamento crescia e atrapalhava cada vez mais. Perdeu o segundo e já estava levando uma surra no terceiro round.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“SHHHLLLLUUUUURRRRP! CHUPA! QUE DELÍCIA!” A tela ficou cheia de pontos coloridos de cuspe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas provocações de Jefferson deixaram o outro menino muito nervoso. É claro que ele perdeu e foi embora. Quando ele saiu, Jefferson ainda esticou o pescoço e gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“DESCULPA AÍ VIU!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história se repetiu nas lutas seguintes, o jogador era substituído apenas de um lado da máquina. Deveria ter vencido umas oito lutas na seqüência. Depois disto, o movimento diminuiu um pouco, e Jefferson foi obrigado a disputar apenas com a máquina. Era chato, ninguém parava para assistir, ninguém fazia um comentário do tipo: “NÓ! HUMILHOU! HUMILHOU!” ou então um: “NÓÓÓ! VAI DEIXAR BARATO?”. Isto fazia muita falta para o menino. É claro que um ou outro escorregão na luta o faziam protestar, e os palavrões proferidos eram surpreendentes na voz raivosa do garoto de oito anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava ficando um saco. Já estava prestes a matar de pancada o Bison, chefe final, pela décima quinta vez na vida, quando sua salvação entrou na galeria. Era um rapaz gordo, com uns dezesseis anos de idade, cujos maiores prazeres eram o jogo e a comida. Tinha tudo para ser um grande fã, disposto a levar a experiência do Street Fighter para além da simples proposta do leve entretenimento. Mas, seria ele bom o bastante para vencer um engraxate com a metade de sua idade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem se aproximou e cumprimentou Jefferson. Não o conhecia, mas assim mesmo o fez porque além de gordo era um menino educado, que não merecia de modo algum as troças de que sempre era alvo. Jefferson olhou de volta muito sem graça, sem saber o que dizer. Não disse nada e voltou sua atenção ao jogo. O rapaz deixou algumas coisas perto do cinzeiro, colocou a ficha, deu o start e fez aparecer na tela a frase: “Here comes a new challenger!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson tentou se recompor, pois a coisa toda havia ficado séria uma vez mais. Os outros meninos já se aproximavam curiosos e se perguntando se finalmente havia chegado a hora de quebrar o domínio do pobre diabo. Mas, por mais que tentasse, Jefferson estava tendo problemas para se concentrar. Seus olhos não conseguiam focalizar bem o que acontecia no jogo e a resposta dos músculos das mãos aos estímulos visuais da tela estava ficando lenta. Estava muito cansado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luta começou sem que ele estivesse preparado. Desde logo apanhou do Ken escolhido pelo inimigo. Era a mesma coisa que o Ryu, por isso, o talento do jogador é que ditaria o rumo das coisas por ali. Só que Jefferson estava tendo sua habilidade sufocada por uma fraqueza crescente, um mal estar terrível. A barriga doía e era de fome, dessa vez era de fome.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBVg982m7I/AAAAAAAAABE/o0BUwyhWxck/s1600-h/cken.gif"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Ele não era nem a sombra do que fora há meia hora. Lento, amador, distraído, estava perdendo a ficha, &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBV7d82m8I/AAAAAAAAABM/epsLafZ0WAU/s1600-h/cken.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5102672857951280066" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBV7d82m8I/AAAAAAAAABM/epsLafZ0WAU/s320/cken.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;podia sentir várias engraxadas de sapato se perdendo, e seus esforços se tornando inúteis. Já não tinha mais força para gritar ou provocar, nem para humilhar. Não havia o que comemorar. Ryu tombou dramaticamente, com um gemido de cortar o coração e, quase que se poderia ver uma lágrima nos sprites dos olhos do lutador. E se ergueu para continuar sendo espancado e o pior de tudo, por seu grande rival, o Ken. Os meninos costumavam comentar que Ryu e Ken quase sempre se destruíam na porrada, mas, no fundo, eram grandes amigos. Só que nada daquilo importava naquela hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Metade do segundo round, Jefferson estava perdendo. Foi quando tirou os olhos da tela e viu que, próximo ao cinzeiro, havia uma barra de chocolate. A embalagem era vermelha e branca, o que mais poderia ser se não chocolate? Voltou a olhar para a tela logo. Deu um pulo que não tinha nada a ver e pagou por isto, foi ao chão mais uma vez. Ergueu-se, sem muita perspectiva. Olhou de novo para o chocolate e depois para a tela. Nada estava acontecendo. Chocolate, jogo, chocolate, jogo. Estendeu o braço num soco veloz, apanhou o chocolate e saiu correndo puxando a caixa de engraxate. Ryu ficou lá parado, apenas balançando em sua pose de luta normal, enquanto o menino corria sem olhar para trás e segurava o chocolate junto ao peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson saiu da galeria disparado, virou à direita, atravessou a rua, passou pela ponte que encobria o córrego, contornou o prédio das Thermas e foi parar na praça que tinha a fonte do leãozinho. Sentou-se num canto muito escondido, rasgou a embalagem e comeu o chocolate. Era maravilhoso, teve que se controlar para poder aproveitar. Teve a disciplina de um verdadeiro campeão, deu mordidas pequenas para render e sentir a doçura que poucas vezes podia provar. Ainda assim, tudo acabou rápido e o menino ficou lá parado olhando a embalagem rasgada. Passava os dedos por ela, sentia a textura e a fonte do leãozinho derramava água. Deixou o plástico de lado e foi lavar o rosto. Os dedos esfregavam a pele da cara e escorregavam em meio ao óleo, sujeira e suor. Era refrescante, lavou as mãos e bebeu um tanto bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou para perceber que continuava com fome. Então viu que perto dali estavam outros dois meninos, um da idade dele e o outro de apenas seis anos. O mais velho carregava uma caixa de engraxate também. Jefferson decidiu se aproximar, pois já conhecia os dois. Chegou e ficou olhando para eles. O mais velho, Patrick, olhou de volta invocado e falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que que foi?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada”. E Jefferson olhou para baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que que tá quereno?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson não disse nada. Voltou a olhar para os dois. Então perguntou: “Cadê os outro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ué, tão lá na praça perto da avenida” respondeu Rogério, o de seis anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pouco mais de tempo passou sem que acontecesse nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamo lá”, convidou Patrick. E foram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lugar era próximo, além de muito agradável para as crianças. Muitas árvores, algumas tão velhas e com galhos tão podres que faziam os velhos reclamarem da prefeitura. Chegaram a um lugar bem difícil de ser visto de longe, cercado por árvores e moitas. Encontraram um grupo de cinco meninos, sentados, que conversavam e faziam brincadeiras de mão. Eles estavam cheirando uma cola miserável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou para que tratassem Jefferson como um igual. Passaram-lhe um saco com a cola amarelada, de uso comunitário. Aquela cola que servia para colar os mesmos sapatos que ele engraxava. Parecia que ele estava destinado a se associar sempre às coisas mais rasteiras, como sapatos, cola, graxa e meninos de rua. Em sua cabeça infantil, era só o fliperama que salvava sua dignidade. No entanto, ele teve que abandonar o posto por causa da maldita fome. Mas a cola haveria de matá-la, além de permitir que ele fosse alguém diferente por alguns momentos. A cola fazia com que perdesse a noção de si mesmo, do próprio corpo e nada, nenhum dos problemas se fazia notar. Tudo que se sentia era o mundo girando lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O saco de cola inflava e murchava na boca de Jefferson, sendo o reverso do que acontecia em seus pulmões. Depois de pouco tempo ele já estava muito louco. Não era bom, mas assim a fome desapareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou lá sentado até que foi forçado a sair correndo por causa de um policial que se aproximava. Na verdade, ele não correu, não deu. Tudo que conseguiu fazer foi cambalear. No entanto, o oficial resolveu não perder o seu tempo perseguindo a ralé da cidade. Jefferson estava sozinho de novo, e o efeito da cola diminuía aos poucos. Pensou em voltar ao fliperama, pois ainda tinha quatro fichas. Por outro lado, poderia guardar as fichas para o domingo. Domingo era um dia bom, o centro ficava cheio de manhã por causa da ferinha e alguns homens sempre queriam ter os sapatos engraxados. Havia uma barraca em que ele poderia comprar churros, de doce de leite e de chocolate. Era uma das coisas de que mais gostava, além de pipoca. Havia vendedores bondosos que vendiam para ele mais barato, quando o dinheiro não dava. Alguns davam de graça, de pena. Não dar nada para bêbado era fácil, bastava chamá-lo de vagabundo e expulsá-lo que ele mesmo concordaria e iria embora. Mas com um menino cheio de fome seria sacanagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson gastou o tempo dando voltas pelo centro. A cola já tinha passado e a fome estava voltando. Decidiu voltar para casa, na esperança de que o alimentassem. Caminhou até o ponto de ônibus e encontrou mais gente que queria voltar para casa. Esperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus chegou e ele subiu, rastejou por baixo da catraca e ficou de pé vendo as pessoas andando na rua e os carros das famílias que saíam para jantar ou visitar avós. Começou a se cansar e precisou sentar. Cochilou e acordou perto do ponto em que deveria descer. Esperou um pouco mais e desceu. Rambo tinha vindo para buscá-lo e olhava para ele com uma satisfação contida. Os dois seguiram para o casebre e nada foi dito, naturalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram pelo Fiat 147 de Jorge, que não estava vazio. Tinha o Jorge lá dentro e uma moça, mas Jefferson não saberia dizer o que estavam fazendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente chegaram. O nariz de Jefferson estava escorrendo. Logo que entrou, encontrou o pai sentado no cômodo que era cozinha e sala improvisada, com algumas tralhas doadas. O pai se levantou e foi até o menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quanto ganhou hoje?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson ficou quieto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não ganhou dinheiro hoje?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebeu um tapa violento na orelha, que o lançou ao chão. Não conseguia mais ouvir direito, apenas um zumbido e, ao fundo, alguns berros do pai que não dava para entender. Estava grogue, havia perdido o referencial, tudo girava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Jefferson caiu, suas fichas de fliperama se espalharam pelo chão. O pai, percebendo que não era dinheiro, ficou muito puto. Então era naquilo que o moleque enfiava o dinheiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson ouviu o pai chutar as fichas para longe enquanto via Rambo parado à sua frente. O menino estava com a orelha colada no chão, tremendo, os olhos ardendo e a garganta se contraindo, com muita vontade gritar e chorar. Mas não conseguia, estava paralisado, estava com medo, com raiva e com todos os sentimentos ruins do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai saiu, mas logo voltou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson viu o pai parando ao lado de Rambo. O cachorro o olhou desconfiado, mas nada fez quando o homem pôs a mão em sua cabeça e a encostou no chão, no mesmo plano em que estava a cabeça do engraxate. Os dois amigos se olharam nos olhos e um contagiava o outro com o próprio medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai se certificou de que Jefferson estava vendo e deu um tiro na cabeça de Rambo. Ele havia saído para buscar o revólver trinta e oito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Jefferson abriu a boca, arregalou os olhos, ficou vermelho e tremeu mais ainda. Chorava com o pior desespero que é o reprimido. Tentava gritar alguma coisa, mas não conseguia. No máximo, uns gemidos animalescos de puro ódio. Suas lágrimas se espalhavam pelo chão como o sangue do cachorro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rambo continuava com os olhos abertos, e Jefferson jamais se esqueceria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai saiu e deixou o filho no chão para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jefferson, depois de um tempo saiu correndo cheio de horror. Deitou-se no quarto junto com os irmãos. Ouviu os gritos horrendos que a mãe deu quando viu o que jazia na cozinha. Fechou os olhos com muita força e viu todos os lutadores do Street Fighter fazendo seus principais golpes. Foi nisso que pensou à noite inteira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3675708-5803311795199453096?l=monte-de-palavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/feeds/5803311795199453096/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3675708&amp;postID=5803311795199453096&amp;isPopup=true' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/5803311795199453096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3675708/posts/default/5803311795199453096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://monte-de-palavras.blogspot.com/2007/08/sem-futuro.html' title=''/><author><name>Sandro Livio Segnini</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03724362461952484917</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://2.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/S-1b3P-WxnI/AAAAAAAAAG4/j7UfbP9jSsc/S220/sold2.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_lNQggTWKNd8/RtBS5N82m5I/AAAAAAAAAA0/PJmJ3BrwkKI/s72-c/guile.gif' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry></feed>
